¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quarta-feira, dezembro 06, 2006
 
BEEMAN E A SINCERIDADE NOSSA


Sempre que recebo visita de amigos estrangeiros, costumo levá-los até a Santa Ifigênia. Para que tenham uma idéia precisa do que é o Brasil. Para quem não vive em São Paulo, explico: Santa Ifigênia é um dos maiores centros de contrabando e pirataria a céu aberto da América Latina. Digo um dos maiores, porque o maior mesmo é a rua 25 de Março. Algumas vezes, para mostrar serviço, a polícia e a Receita Federal dão uma batida e apreendem dez, vinte, quarenta caminhões de muamba. Certa vez, nas imediações da 25 de Março, foram lacrados 200 apartamentos que serviam de depósito ao contrabando. No dia seguinte, tudo segue igual. É como se a apreensão de dez, vinte ou quarenta caminhões sequer fizesse mossa ao comércio ilícito.

Se um soft qualquer custa 400, 1000, 5000 ou 6000 reais, na Santa Ifigênia tem um preço só: dez "real". Filmes que ainda não estrearam no Brasil lá estão. Por dez "real". Qualquer filme. Se não está disponível no momento, é só voltar no dia seguinte. Amazon é coisa do passado. Para não terem filmes ou CDs apreendidos, os camelôs exibem um mostruário apenas com a capa dos filmes ou CDs. Você negocia, paga, o camelô some pelas galerias próximas e volta com a mercadoria. Aparelhos de DVD, MP3, MP4, Ipod, computadores, telefones, toda sorte de eletrônicos têm preços de sonho. Contrabando não paga imposto. Só na Santa Ifigênia, são oito quarteirões de comércio ilegal. Numa das ruas, creio que na Aurora, há uma delegacia de polícia, sempre com quatro ou cinco camburões estacionados em sua calçada. A dez metros dos camburões, começa o reino do ilícito.

Meus amigos estrangeiros não entendem mais nada.

- Mas isso não é ilegal?
- É.
- E ninguém proíbe?
- Ninguém.
- E essas viaturas policiais que fazem aqui?
- Sei lá, vai ver que é para dar proteção ao contrabando.

Esta é, a meu ver, a maneira mais rápida de fazer um estrangeiro entender este país nosso.

A Santa Ifigênia recebeu ontem a visita de um estrangeiro ilustre, Keith Beeman, o diretor mundial de Propriedade Intelectual da Microsoft. Leio no Estadão que Beeman comanda um exército de 150 funcionários contra a falsificação de softwares em um escritório envidraçado, com vista para as congeladas Montanhas Cascade, na cobertura de um dos cem prédios que compõem o conglomerado da empresa em Seattle.

Na Santa Ifigênia, um menino de 20 anos ofereceu ao executivo americano cópias do Windows Vista e do Office 2007... que a Microsoft deve lançar no ano que vem. Agilidade é conosco mesmo. Beeman quis saber o preço.

- Dez "real". Caro? Caro é o original. Esse é falso e expira em alguns meses, porque é cópia beta. Se quiser o que não expira, custa vinte "real", mas tem de esperar uns dias.

A Microsoft ainda não determinou o preço do Windows Vista. A Santa Ifigênia já: dez "real". Beeman teve de render-se às nossas virtudes:

- O mais impressionante é a sinceridade com o cliente. E se o software não funcionar?
- Não tem problema, dou assistência - disse o garoto, entregando o número do celular.

Ontem à tarde, mais um estrangeiro entendeu o Brasil.