¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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domingo, dezembro 03, 2006
 
SOBRE PARIS E BUCARESTE



Escreve um irado leitor que "tentar denegrir um dos lugares mais belos e que proporcionam a melhor qualidade de vida do RS - a pampa gaúcha - é de uma sordidez inconcebível, que se torna ainda pior quando vindo de um fronteiriço. Existe algum prazer em renegar e verbalmente destruir a terra que te embalou? Que te serviu de berço?"

O leitor se refere a artigo anterior, em que falo das favelas horrendas que a guerrilha católico-marxista do MST está instalando na pampa rio-grandense. Apesar de ser leitor, parece não saber ler. Em momento algum denegri pampa alguma. Comentei, isto sim, que o MST estava destruindo aquela geografia de minha infância. E concluí:

"Melhor ir a Rivera. O Uruguai é pequeno e não admite tais palhaçadas de Terceiro Mundo. Melhor esquecer a favela e degustar uma boa costela de cordeiro, regada com um esplêndido Tannat. Vontade de ficar eternamente no pequeno Uruguai. Naquelas bandas que os espanhóis marcavam nos mapas como "Tierra de Ningún Provecho".

Parece ter sido aí que o leitor se picou: "Sinto vergonha de ver indivíduos como tu voltando as costas para a sua origem em nome de um refinamento ridículo e pseudo-insight, onde a pretensão é bem maior que o talento. E não há o que justifique. Portanto é melhor nem tentar. Lamento muito o fato de sermos conterrâneos, pois assim como Sábato não merecia ter um tradutor tão capenga, Sant'Ana do Livramento não merecia ter um filho como tu. Um conselho: vai morar no Uruguai; mais precisamente na tua amada Rivera! Quem sabe lá, naquela 'cidade-maravilha', onde saindo da av. Sarandi parece que entramos num grande esgoto, tu encontre a tua
Shangri-Lá".

E aí não entendi mais nada. Em primeiro lugar, em momento algum falo de Livramento. Disse apenas que estava "rodando entre Dom Pedrito e Livramento". Em segundo lugar, nunca afirmei que Rivera fosse uma cidade-maravilha. Em terceiro, tampouco entendo porque introduzir Sábato no assunto. O leitor em questão, que certamente jamais leu minhas traduções de Sábato, insiste em desqualificar-me como tradutor, como se fosse um grande especialista em traduções. Na verdade, estamos diante de um desses tantos patrioteiros - tão abundantes no Brasil - que julgam viver no melhor país do mundo.

Se nunca afirmei que Rivera fosse uma cidade-maravilha, agora no entanto afirmo: para pequena cidade do interior, Rivera está uma maravilha. Com a instituição da zona franca, a cidade tornou-se uma requintada free-shop, que atrai gentes do Rio Grande do Sul todo e mesmo de Santa Catarina. Apesar de a moeda dominante ser o dólar, nos feriadões mal se pode caminhar na cidade. Em suas lojas, os turistas ocasionais encontram produtos de consumo que, fora de Rivera, só encontramos nos aeroportos internacionais e nos grandes magazines de Paris, Londres ou Nova York. E as meninas que atendem nas lojas têm todo um charme mais encontradiço às margens do Sena. O restaurante Brasil-Uruguai, na Sarandi, nada fica a dever a um restaurante parisiense. Quem fica a dever é o restaurante parisiense: em Paris não vamos encontrar as carnes e os assados que lá encontrei.

De Livramento nada posso dizer, pois quando vou a Rivera sequer cogito de dar uma espiada em Livramento. Embora tenha lá nascido, no distrito rural de Upamaruty, a cidade que me serviu de berço foi Dom Pedrito, a zona morta na qual faço uma pausa para revisitar amigos, antes de ir à zona franca da Banda Oriental. Dom Pedrito foi conhecer o chope somente neste ano da graça de 2006. Em Rivera, o chope existiu desde que existe. Dom Pedrito não tem mais cinemas. Rivera tem cinemas. Não há nada em Dom Pedrito que se possa chamar de livraria. Em Rivera há livrarias. Em Dom Pedrito, hoje, só existe essa horrenda fórmula de restauração, o "por quilo". Em Rivera, temos a boa e velha restauração à la carte, garçons atenciosos, e mais, com uniformes, duas coisas que os pedritenses só cogitarão, talvez, daqui a alguns séculos. Dom Pedrito, cidade pecuária, perdeu a noção do churrasco. Em Rivera temos cordeiros esplêndidos, parrilladas excelentes. Em Dom Pedrito ainda não se chegou ao café expresso. Só há café de bule. Em Rivera, o expresso é servido com um copinho de água mineral gelada ao lado. E isto não é de hoje. Nos anos 70, quando eu atravessava a Calle Internacional, lá já existia o expresso com o copinho de água mineral.

Rivera é uma cidade cheia de árvores nas ruas. Em Dom Pedrito, as árvores, se existem, são escassas. Dom Pedrito está tomada pelos sem-terra. Em Rivera, essa praga não viceja. O Brasil rendeu-se à guerrilha católico-marxista. No Uruguai, estes bandoleiros não têm vez. Rivera está rica e esplendente. Dom Pedrito, cada vez mais pobre e decadente.

Meu irado e ufanista leitor, que pouco ou nada deve ter viajado, se quiser ter uma idéia melhor das diferenças entre a oriental Rivera e suas vizinhas brasileiras, podia começar visitando a Romênia e a França. A distância entre Dom Pedrito e Rivera é a mesma que medeia entre Paris e Bucareste. Não em quilômetros, mas em parâmetros de civilização. Apesar de apenas uma centena de quilômetros separar as duas cidades gaúchas, Dom Pedrito, encaramujada em seu zelotismo, não se deixa influenciar pelos padrões de luxo e consumo da irmã oriental.