¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quarta-feira, janeiro 10, 2007
 
CHAVELA VARGAS



Entrei outro dia em um táxi, o rádio berrava um bate-estacas ianque qualquer. Pedi ao motorista que desligasse. O senhor prefere MPB? - me perguntou. Não, eu preferia o silêncio. A menos que tivesse música italiana. Tinha? Não tinha. Francesa? Muito menos. Mexicana? Também não. Quem sabe sueca ou finlandesa? Nem pensar. Então desliga.

O Brasil, hoje, parece não conceber a existência senão de dois gêneros musicais, a música brasileira e a americana. É o que se vê nos rádios, bares e táxis de todas as cidades. Verdade que um dia encontrei um táxi com os Carmina Burana em alto e bom som. Cumprimentei-o com entusiasmo e o estimulei a sempre oferecer a seus clientes boa música, afinal, por incrível que pareça, mesmo neste Brasil lulesco, ainda existem pessoas que curtem os goliardos. Mas isto não se encontra todos os dias. Não que eu peça óperas em um táxi, nada disso. Mas existem outras músicas no mundo que não a brasileira e a americana.

Já confessei, em posts passados, meu fascínio pela música mexicana, particularmente pelas canções mariachis. Foi música que embalou minha infância, há mais de quatro décadas, quando eu ainda vivia no campo. Miguel Aceves Mejia e Jorge Negrete eram nossos cantores prediletos. Curiosamente, hoje, nem na cidade encontramos estes cantores. A recente morte de Mejia passou praticamente despercebida no Brasil. Verdade que, nesta São Paulo onde há de tudo, encontrei um bar - El Mariachi - onde às vezes vou ensaiar meus ui-ui-ui com os cantantes.

Mês passado, fiz uma descoberta que me envergonha: Chavela Vargas, a grande dama da canção mexicana. Me envergonha porque Chavela canta há mais de meio século e só fui descobri-la agora, junto a pessoas que cultivam a canção mariachi. Seu primeiro álbum foi gravado em 61 e, de lá para cá, gravou mais de 80 discos. E eu jamais havia ouvido falar dela. Ouvi-a pela primeira vez, em Florianópolis, junto a amigos fascinados pelo México. Siderado, tentei encontrá-la em lojas de São Paulo. Nem sombra da Chavela, nem mesmo na Fnac. Vou comprar em Paris, pensei. Nesse meio tempo, passei minha descoberta a dois amigos em Porto Alegre. E já estou com dois CDs da cantora, elaborados a partir do Kazaa.

Isabel Vargas Lizano, mais conhecida como Chavela Vargas, nasceu em 1919, em Costa Rica. Dedicou-se a cantar canciones rancheras, gênero muito masculino. Vestia-se como homem, bebia a gosto, fumava, usava revólver e era reconhecida por seu poncho vermelho. Teria sido amante de Frida Kahlo e em 2002 aparece no filme Kahlo, de Julie Taymor. Em 2003, aos 83 anos, apresentou-se no Carnegie Hall. No Google, encontrei uma entrevista sua datada de 2000, em que se orgulha de manter-se virgem em seu climatério. Mulher coerente taí. Homem algum tocou naquele corpo.

Recomendo vivamente aos cultores do México e música mexicana. Daqui a duas semanas, estarei buscando Chavela em Paris. Porque neste Brasil dos jabaculês, nem pensar.