¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quinta-feira, janeiro 04, 2007
 
COMO ESCREVER UM ARTIGO SEM FAZER MUITO ESFORÇO*


Marco Aurélio Antunes


Ao ler o artigo A historiografia comunista: a era dos extremos, de Carlos Azambuja, que supostamente comentaria a obra Cortar o mal pela raiz!, de Stéphane Courtois (Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2006), percebi que estava diante de uma cópia do texto do livro, a qual não foi informada aos leitores. Azambuja cita o livro, mas como fonte da citação em itálico que está logo no início do texto. Quem não conhece o livro pensará que Azambuja foi o autor do artigo.

Azambuja preferiu não fazer muito esforço para escrever seu artigo, e apenas copiou trechos do livro de Courtois, com algumas alterações que serão mostradas a seguir. Os nove parágrafos do artigo são uma cópia do texto do livro. Vamos examinar o que Azambuja acrescentou, modificou ou omitiu. Os trechos em questão foram publicados a partir da página 95, na parte intitulada As vestes não muito novas da historiografia comunista, do capítulo, escrito por Stéphane Courtois, que tem o mesmo nome do título do livro.

Constatei que Azambuja não sabe nem mesmo escrever o nome do historiador que critica. Em vez de escrever "Hobsbawm", escreveu "Hobsbawn". No primeiro parágrafo, Azambuja escreve: "Por muito tempo os comunistas procuraram impor a sua própria historiografia do Século XX, em particular a historiografia do comunismo". No livro, está escrito o seguinte: "Os comunistas, por muito tempo, procuraram impor a sua própria historiografia do século XX, em particular do comunismo". Azambuja inverteu a ordem de algumas palavras, escreveu a palavra século com letra maiúscula e repetiu a palavra historiografia. Portanto, a primeira frase é uma cópia piorada, já que é inferior em termos de correção gramatical e estilística.

Na segunda frase do artigo de Azambuja, lê-se: "Depois de terem, por décadas, desenvolvido um discurso alinhado com as teses soviéticas, esses historiadores foram surpreendidos pelo desmoronamento da União Soviética, desmantelamento do sistema comunista mundial e pela abertura dos arquivos". No livro de Courtois, está escrito: "Depois de terem, por décadas, desenvolvido um discurso aliado com as teses soviéticas, os historiadores pertencentes a esse movimento foram surpreendidos pelo desmoronar da URSS e pela abertura dos arquivos". Portanto, o trabalho criativo de Azambuja em tal frase foi substituir aliado por alinhado, desmoronar por desmoronamento e URSS por União Soviética, além de omitir a expressão "pertencentes a esse movimento" e acrescentar a expressão "desmantelamento do sistema comunista mundial".

Azambuja escreveu isto na terceira frase do artigo: "A grande maioria dos partidos comunistas perdeu a pretensão de elaborar 'suas' histórias". No livro, lemos: "O PCF e os outros partidos comunistas perderam quase toda a pretensão de elaborar a 'sua' história". Azambuja usou a expressão "grande maioria", que não está de acordo com o texto de Courtois. Se Azambuja quis apenas citar trechos do livro, copiou mal, distorcendo idéias do autor. Se quis apresentar o texto como se fosse seu, as semelhanças com o texto mostram que o artigo não é da sua autoria.

O restante do primeiro parágrafo é quase igual ao livro de Courtois. O segundo e o terceiro parágrafo também são copiados com poucas alterações. Note-se que, na cópia de Azambuja, estão escritas de forma errada as palavras neocomunistas, antifascismo, antidemocrática e anticomunista, nas quais ele usou hífen. Não sei por que ele modificou tais palavras. Se apenas copiasse com exatidão o que leu no livro, Azambuja não revelaria o fato de que não domina muito bem a norma culta da língua portuguesa.

No quarto parágrafo, lemos o seguinte: "No livro, Hobsbawn confunde a Revolução Bolchevique com a Revolução Democrática de fevereiro de 1917 e retoma o tema da 'grande revolução proletária mundial', mito criado por Lenin, que mantinha relações bastante longínquas com a realidade, já que o proletariado, além de pouco desenvolvido, não era necessariamente revolucionário". Vejamos o que diz o livro: "Hobsbawm não apenas confunde a revolução bolchevique com a revolução democrática de fevereiro de 1917, mas também a interpreta ao pé da letra. Ele retoma o tema da 'grande revolução proletária mundial', mito criado por Lenin, que teve um impacto incontestável, mas que mantinha somente relações bastante longínquas com a realidade, já que o proletariado, além de pouco desenvolvido - exceto em alguns países industrializados - não era necessariamente revolucionário". Três expressões são omitidas por Azambuja: "mas também a interpreta ao pé da letra", "que teve um impacto incontestável" e "exceto em alguns países industrializados". Portanto, se a intenção era copiar, Azambuja copiou mal.

No quinto parágrafo, a cópia continua, com poucas alterações. Na última frase do sexto parágrafo, Azambuja novamente mostra sua criatividade. No livro, lê-se: "E estima, evidentemente, que a guerra fria deveu-se à vaga anticomunista surgida nos Estados Unidos". Azambuja resolveu escrever isto: "E estima, evidentemente, que a Guerra Fria deveu-se à histeria anti-comunista surgida nos EUA". Trocou vaga por histeria e Estados Unidos por EUA.

No sétimo parágrafo, há outra omissão no texto de Azambuja, que não parece ter sido feita sem intenção. Ele escreveu: "Essa era dourada, contudo, concerne somente à parte não-comunista do mundo, pois nesse mesmo período as populações submetidas a regimes comunistas curvavam-se ante o terror de Stalin, de Mao, de Ceaucescu e logo Pol Pot, e viviam uma miséria que era resultado direto da ideologia comunista aplicada ao campo econômico. Hobsbawn apresenta o período posterior a 1973 como os anos de declínio e de uma nova catástrofe anunciada".

No livro, está escrito: "Essa era dourada, contudo, concerne somente à parte não-comunista do mundo, em particular às grandes democracias, pois, nesse mesmo período, as populações submetidas a regimes comunistas curvavam-se ante o terror de Stalin, de Mao, de Ceaucescu e logo Pol Pot, e viviam uma miséria que era resultado direto da ideologia comunista aplicada ao campo econômico. Hobsbawm apresenta o período posterior a 1973 como os anos de declínio e de uma nova catástrofe anunciada". Teria sido um simples descuido a omissão da expressão "em particular às grandes democracias"?

Carlos Azambuja deve explicações a seus leitores. Se quisesse apenas citar trechos do livro, Azambuja deveria copiar o texto sem alterações, indicando quais seriam as partes copiadas. Mas se Azambuja tentou apresentar o texto como se fosse obra da sua autoria, as semelhanças aqui apontadas afastam a hipótese de que tenha sido ele o autor. Copiou mal sem indicar que estava copiando ou tentou apresentar como seu um texto de outro autor: tais são as hipóteses para explicar o artigo A historiografia comunista: a era dos extremos, de Carlos Azambuja. Tertium non datur...

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*Publicado originalmente em

http://plural.motime.com/post/632366