¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quarta-feira, janeiro 03, 2007
 
DOIS TEXTOS (2)




De Porto Alegre, o leitor Marco Aurélio Antunes, me envia estes trechos do livro Cortar o mal pela raiz, de Stéphane Courtois, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2006, p. 95.


Os comunistas, por muito tempo, procuraram impor a sua própria historiografia do século XX, em particular do comunismo. Depois de terem, por décadas, desenvolvido um discurso aliado com as teses soviéticas, os historiadores pertencentes a esse movimento foram surpreendidos pelo desmoronar da URSS e pela abertura dos arquivos. O PCF e os outros partidos comunistas perderam quase toda a pretensão de elaborar a 'sua' história. Após um tempo de flutuação, porém, os velhos reflexos ressurgiram, como demonstram as reações conservadoras publicadas em certos meios universitários, na França, nos Estados Unidos ou na Grã-Bretanha.

Autor marxista conhecido por seus trabalhos sobre o século XIX, Eric Hobsbawm acreditou no projeto de dar uma continuidade ao Era das revoluções com o Era dos extremos, publicado em inglês em 1994. Surgindo ao mesmo tempo em que as obras de Malia e Furet, o livro pareceu de tal modo ancorado na mitologia comunista dos anos 60-70, tão deslocado relativamente à nova ambiência intelectual, que seu editor francês habitual renunciou a publicá-lo. Finalmente, o Le Monde Diplomatique, órgão quase que oficial do marxismo terceiro-mundista, realizou a edição em 1999, a fim de utilizá-lo em seu combate ao 'ultraliberalismo' e à 'globalização' - vocábulos neocomunistas que designam o capitalismo em geral e o imperialismo norte-americano em particular -, mas também contra os historiadores críticos do comunismo.

Eles se encarnam em quatro livros emblemáticos: A era dos extremos, de Eric Hobsbawm, The road to terror, de J. Arch Getty e Oleg Naumov, Le siècle des communismes, dirigido por um grupo de universitários franceses, e Les furies, de Arno Mayer. Todos os quatro são representativos das reações de três gerações filocomunistas: a dos velhos marxistas e comunistas ocidentais - Hobsbawm nasceu em 1917 -, a geração acadêmica dos anos 70, influenciada pelos revisionistas americanos e, por fim, a geração oriunda de 68, esquerdistas e comunistas.