¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

Powered by Blogger

 Subscribe in a reader

segunda-feira, abril 09, 2007
 
AS TRÊS BELGAS E O AFRICANO



Um dos cafés mais charmosos da Europa, e certamente o mais encantador de Bruxelas, é o Metropole. Pertence ao hotel de mesmo nome. Colunatas de mármore, muita madeira revestindo o interior, candelabros magníficos caindo do teto. Faz parte de minha concepção de paraíso. Fica na Place de Brouckere, região central, próximo à Grand Place. A meu ver, só o café vale uma visita à cidade. Posso deixar de ver a Grand Place quando em Bruxelas. Mas não deixo de bater ponto no Metropole. Gosto tanto deste bar que nesta última viagem me hospedei no hotel que o abriga. Para chegar àquele oásis, não preciso enfrentar neve nem ventos. Basta descer pelo elevador.

Aconteceu em fevereiro passado. A manhã era fria, linda e ensolarada. Eu estava instalado na terrasse do café, com dois ou três jornais na mesa e uma cerveja em punho, quando cerca de vinte carros de polícia, sirenes uivando, entraram na praça à toda velocidade, rumo à Grand Place. Nestes dias de terror, o primeiro pensamento que nos ocorre é: bomba. Pelo número de viaturas, imaginei um atentado de proporções. Bom, o Metropole continuava incólume. Continuei lendo meus jornais e bebericando minha Leffe.

Não era atentado. Em poucos minutos, surgiu um africano franzino, coisa de vinte anos, correndo em direção a meu paraíso, com cinco ou seis policiais atrás dele, de pistolas em punho. Foi derrubado e rendido a três ou quatro metros de minha mesa, rente à cerca de flores da terrasse. Os carros todos da polícia deram meia volta e se aglomeraram frente ao Metropole. Fiquei matutando. País rico é outra coisa. Vinte viaturas da polícia para render um pobre diabo desarmado.

No minuto seguinte, percebi que me enganava. Do nada, surgiu uma multidão de árabes e africanos, que cercaram o café e as viaturas. Não ousaram agredir os policiais, o número destes era bastante dissuasivo. Mas é claro que se os policiais fossem apenas dois ou três, não conseguiriam manter preso o rapaz. Tornei a matutar. País rico é outra coisa. Precisa de meia centena de policiais para prender um africano.

A polícia está perdendo o controle das cidades na Europa. Em meados de março passado, a polícia francesa prendeu um imigrante chinês sem permissão de estada no país, em Belleville, no 19º arrondissement. Confronto de habitantes do bairro com a polícia, protestos em cadeia em todo o país, manifestações públicas em Paris, greve de professores, artigos em jornais condenando o autoritarismo da polícia. Ora, os policiais apenas cumpriam seu dever.

Ainda no mês passado, um quebra-quebra ocorreu na Gare du Nord. Um congolês tentou pular a catraca do metrô e foi preso. Centenas de jovens - eufemismo empregado pelos jornais franceses para designar imigrantes e filhos de imigrantes árabes e africanos - enfrentaram os policiais e depredaram a estação de trens. Pelo jeito, já existe na França um considerável contingente de imigrantes que considera perfeitamente legal, digno e justo usar o metrô sem pagar passagem. O problema é antigo e os funcionários do metrô há muito desistiram de fiscalizar estas transgressões, por medo a represálias.

Se há alguns a polícia francesa já temia entrar nos bairros árabes de cidades conflagradas como Paris ou Marselha, agora a polícia já passa a ser agredida mesmo fora dos bairros de imigrantes. Paris está se encaminhando celeremente às condições do Rio de Janeiro, onde o Estado já desistiu de estar presente nos bantustões dominados pelo tráfico.

Volto a Bruxelas. Naquele dia, no Metropole, não pude deixar de notar a indiferença dos europeus em relação aos conflitos com imigrantes. O rapaz africano fora rendido junto à cerca de flores da terrasse. Em uma mesa colada à cerca, três meninas belgas tomavam café. Colado à mesa delas, havia um homem com cinco pistolas encostadas ao rosto. Hieráticas e solenes, nem se dignaram a desviar o olhar para ver o que acontecia a 30 centímetros da mesa.

É uma opção. Por que estragar uma bela manhã ensolarada contemplando a miséria africana prostrada ao solo? Mas me parece ser de bom alvitre que os europeus prestem mais atenção ao que ocorre a trinta centímetros de seus narizes, antes que seja tarde.

Se é que já não é tarde.