¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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domingo, abril 01, 2007
 
DURA COMPETIÇÃO ENTRE MINISTROS



Às vezes faz bem um bárbaro entrar a cavalo com uma lança ensangüentada em um salão onde damas da corte dançam minueto. A frase não é minha, mas de Ernesto Sábato. Ocorreu-me pela primeira vez, quando li frase atribuída ao deputado Clodovil Hernández, que dizia estar certo de sua eleição, porque "o povo é burro e vota em qualquer um". Seja ou não a frase de autoria do exótico deputado, é candidata a um lugar de destaque neste século que recém começou. A meu ver, deveria ser transcrita em bronze, não só em todos os legislativos do país, como também no Palácio da Alvorada, onde reside sua mais alta comprovação.

De novo me ocorre a imagem, agora que o vereador Agnaldo Timóteo, ao comentar a proposta da ministra Marta Suplicy, do Turismo, de acabar com o turismo sexual no Brasil, disse singelamente: "sexo é bom". A afirmação é de uma obviedade atroz, pelo menos para quem gosta do que a vida tem de bom. Mas o mundo está cheio de Estados e religiões absolutamente convictas de que sexo é mau, sujo e feio. Pior: ainda hoje, em pleno século XXI, há países onde se mata quem faz sexo fora das regras estabelecidas.A frase é absolutamente acaciana. Mas duvido que um político, algum dia, a tenha proferido em alguma tribuna no Brasil.

O vereador, em linguagem tosca, diz o que todo mundo sabe mas nem todos querem admitir: "Ninguém nega a beleza da mulher brasileira. Hoje as meninas de 16 anos botam silicone, ficam popozudas, põem uma saia curta e provocam. Aí vem o cara, se encanta, vai ao motel, transa e vai preso? Ninguém foi lá à força. A moça tem consciência do que faz. O cara não sabe por que ela está lá. Ele não é criminoso, tem bom gosto. Há demagogia e frescura. Meninos de 16 anos votam, transam, constituem família. E meninas não deixam de fazer sexo. Sexo é bom."

Não é o que pensa a ministra: "O Brasil não é um destino de turismo sexual. Existem países que são, o Brasil não é". Embora as declarações do vereador não tenham, em princípio, nada a ver com a prostituição, as de Marta Suplicy a ela se referem. Pois turismo sexual implica prostituição.

Santa ingenuidade, a da ministra petista. Turismo tem muitas facetas. Há quem viaje para ver paisagens ou monumentos, outros viajam em busca de cultura, outros para comer e beber e outros para curtir sexo. Ou para usufruir tudo isso ao mesmo tempo. Um dos ícones mais poderosos exportados pelo Brasil é o carnaval. Ora, que é o carnaval senão samba, nudez, glúteos, rebolado? Pretende a ministra que os turistas que aqui chegam se contentem em contemplar o lado espiritual das cabrochas? Pretende que um turista solteiro que faz um pacote de um mês passe um mês em jejum em um país erotizado? Ou só devem viajar ao Brasil pessoas com parceiros? Ou monges beneditinos? Ocorre que até os religiosos há muito jogaram ao lixo o voto de castidade.

Se for honesto comigo mesmo, tenho de convir que minha primeira viagem, nos anos 70, foi determinada por sexo. Eu vivia num Brasil católico demais para meu gosto e a Suécia enviava mensagens eróticas ao mundo todo. Calou fundo na época a frase de uma atriz: "quando o sol cai sobre os fjords, que nos resta senão fazer amor?" Era lá mesmo que eu queria estar. Antes de lá chegar, já ansiava por aqueles invernos eternos. O país vendia agressivamente uma imagem de paraíso sexual, para atrair duas coisas necessárias à sua economia: turistas e mão-de-obra imigrante. Ora, eu não viajava para comprar sexo. Queria-o sem pagar. Não era turista nem imigrante, queria conhecer um país e considero que a melhor maneira de conhecer um país é ter o afeto de alguém desse país. Mas no fundo o que me puxava ao reino dos Sveas era a ancestral pulsão, sem a qual a vida não existe.

Lembro-me que uma das imagens da época mostrava uma motorista de seios nus conduzindo um ônibus. Claro que era ficção, mas era ficção poderosa. Prospectos do Svenska Institut - uma espécie de departamento para relações com o estrangeiro - convidavam gentes de todos azimutes a conhecer "as adoráveis louras nórdicas". A Suécia foi o primeiro país da Europa a liberar a pornografia e oferecer aos turistas liveshows, sexo ao vivo. As prostitutas foram glorificadas e assumiram um status quase de assistentes sociais. De repente, Estocolmo, lá no extremo norte da Europa, foi tomada por congressos e simpósios de médicos, dentistas, engenheiros, enfim, de profissionais de todas as áreas. A pornografia, uma indústria que tem uma mão de obra abundante e não exige maior especialização, trouxe divisas e mais riqueza ao país.

Lentamente, a pornografia foi descendo rumo ao Sul. Dinamarca, Holanda, Alemanha, França. Na Alemanha, Beate Ushe, uma ex-piloto da Luftwaffe, prevendo a chegada da onda pornô, produziu toneladas de revistas e filmes eróticos, antes mesmo de a pornografia ser legalizada. Quando a lei foi aprovada no Parlamento, no dia seguinte as cidades foram inundadas de sexshops, livros, filmes e revistas. As católicas Espanha e Itália hesitaram alguns anos, mas acabaram sendo engolidas pelo maremoto. Os europeus viam o novo mercado com pragmatismo. Enquanto isso, aqui no Brasil, os militares viam na pornografia um diabólico plano comunista para minar os pilares do Ocidente e a polícia mandava para a cadeia quem era flagrado com as famosas "revistinhas suecas".

Hoje, até a comunista Cuba tem a prostituição como um poderoso fator de captação de divisas. Quando um jornalista perguntou a Castro porque as universitárias tinham de prostituir-se na ilha, el Comandante respondeu, impertérrito: "Não é bem assim. Aqui, até as prostitutas têm nível universitário".

Enquanto a ministra diz que o Brasil não é um país de turismo sexual, seu partido, o PT, elabora uma cartilha para o bom exercício da profissão de prostituta. Ora, estamos no Ocidente, onde mulher nenhuma é lapidada por entregar-se a seus desejos, onde cidadão algum está proibido de entregar-se ao bom folguedo. Muitas pessoas facilmente esquecem que prostituição não é crime no Brasil. Se a ministra quiser proibir o turismo sexual, podia começar proibindo o turismo. É a única maneira de proibir o sexual.

Seria interessante saber como a ministra vai impedir a entrada de turistas que busquem sexo no Brasil. Ou em que figura penal vai enquadrar o estrangeiro que for flagrado na cama com uma menina. Quem um dia foi aos Estados Unidos, no formulário para visto teve de responder estas perguntas, típicas de protestantes que acreditam na palavra dada: "Pretende entrar nos Estados Unidos para praticar violações no controle de exportação, ou atividades subversivas ou terroristas, ou qualquer outra atividade ilegal? É membro ou representante de alguma organização terrorista atualmente designada pelo Secretário de Estado dos Estados Unidos? Alguma vez participou de perseguições sob a orientação do Governo Nazista da Alemanha, ou participou de genocídio?"

Ora, até o bin Laden responderia não a todos os itens. Imagino que a ministra pretenda inserir em algum formulário para visto perguntas como: você pretender entrar no Brasil para fazer sexo com as brasileiras? É membro de algum clube de pedófilos? Se pretende fazer sexo, prefere qual faixa etária? Se fizer, será sexo pago ou gratuito? Você jura que não vai fretar meninas muito novinhas?

Em verdade, o que parece estar ocorrendo no Brasil é uma dura competição entre ministros para ver quem consegue dizer mais bobagens que o presidente. Ontem foi a Matilde, que afirmou que negro pode ser racista. Hoje é a Marta. Quem será o próximo? Conhecendo os bois com que lavro, muito em breve teremos outras pérolas.