¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sexta-feira, abril 06, 2007
 
EM DEFESA DO FOIE GRAS



Leio no suplemento "Paladar" do Estadão, que o foie gras está em extinção nos Estados Unidos. Na semana passada, um vendedor de cachorro-quente de Chicago recebeu uma multa de US$ 250 por usar a iguaria em suas salsichas. Os ianques que me desculpem, mas ao foie gras não renuncio. Não é acepipe que pertença a meu cotidiano. Mas lá de vez em quando, particularmente quando ando por Paris, é prato do qual não abdico. Desta última viagem, trouxe dez potinhos de cem gramas. A cinco euros cada um. Comprados numa charcuterie. Em um bistrô simpaticíssimo como la Petite Périgourdine, na Rue des Écoles, paguei oito euros por uma tranche de uns bons 150 gramas. Considero então um roubo o que me cobra meu maître-traiteur - se assim pudesse chamá-lo - de Higienópolis, pelos mesmos gramas: 174 reais. Não consigo entender como cinco euros, com todos impostos embutidos, possam se transformar em 174 reais. Isto é roubo que só tem suporte na suposta sofisticação de nouveaux-riches brasileiros: "eu consumo porque é caro".

Consumo, no que a mim diz respeito, primeiro porque gosto. Segundo, porque o preço é razoável. I74 reais, por baixo, dá mais de 50 euros. Bem entendido, não estamos falando do foie gras em si, mas do patê de foie gras. Ora, se em Paris posso comer 150 gramas de patê de foie gras em um bom bistrô por oito euros, não vejo porque pagar 50 em uma mercearia em São Paulo. O responsável por este preço é este brasileirinho abominável, que acha que come bem quando paga caro.

Há campanhas em todo o mundo para acabar com o foie gras. Já recebi não poucos mails mostrando o tratamento abominável que sofrem os patos (já nem se fala no foie gras mais nobre, o de gansos) para a produção da iguaria. Patos com patas presas por pregos e a alimentação sendo despejada por tubos na goela de cada um. De fato, não é nada edificante. Mas pode-se produzir foie gras por métodos mais lentos e naturais. Quem bebe em demasia, sem ir mais longe, produz fígados gordos sem ter pés pregados nem comida enfiada goela abaixo.

Deve ser por isso que sempre me desagrada a idéia de viajar aos Estados Unidos. Aquele país, que nem nome próprio tem, parece ser um breve contra o bem viver. No fundo, não é uma condenação ao tratamento dos patos, mas uma condenação aos prazeres do pálato. Creio que hoje não se encontra no Ocidente lugar algum que tenha tantas restrições ao álcool, ao sexo e, agora, ao bem comer. Nada de espantar, em país que cultua esses xaropes abomináveis como a Pepsi ou Coca.

Confio na França libertária. Há alguns anos, a Comunidade Européia, sabe-se lá em nome de que princípios, quis proibir todo queijo que não fosse pausterizado. Um amigo parisiense, adepto do Camembert e dos bons queijos bichados, me confidenciou: "só se for por cima de meu cadáver".

Voilà um francês de bom senso.