¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sábado, abril 14, 2007
 
LE FRIC DU VOLEUR



Em qualquer lugar do mundo, onde houver assaltos, o turista é a vítima preferida pelo assaltante. Por razões muito simples. Se o turista não teve passaporte, cartões de crédito ou cheques roubados, é óbvio que não vai se submeter a um chá-de-banco numa delegacia, ainda mais com nenhuma perspectiva de ter seu dinheiro ou objetos roubados de volta. Além disso, o turista está sempre de passagem. Mesmo na hipótese de o ladrão ser preso, dificilmente ele estará presente para o reconhecimento. Este tipo de assaltante conta com impunidade quase total. É como dar tapa num cego.

Minha mulher foi roubada em pleno centro de Madri. Por árabes. Eu tive dinheiro furtado do bolso em Bolonha. Por ciganas. Em Estocolmo, estava acertando um hotel em uma agência de turismo, quando minha mala foi roubada. Por um paquistanês. Consegui correr e recuperá-la. Só fui à polícia no primeiro assalto, porque um cartão de crédito fora roubado. Não fosse isso, nem iria. Só serve para atrapalhar a viagem e o resultado é zero.

Consciente destes percalços, a embaixada da França está advertindo os turistas franceses, em sua página na internet: no Brasil, reserve uma nota de R$ 50 para entregar, sem pestanejar, ao ladrão em caso de assalto. A "grana do assaltante", irônica expressão criada pelos cariocas, virou uma condição de sobrevivência. Em bom francês, le fric du voleur. O site também recomenda cuidados especiais em países como a Rússia e a África do Sul. Um turista, hoje, na França, paga um euro por dia pelo privilégio de estar na douce France. O turista francês pagará bem mais de pedágio. Contemplar miséria sai bem mais caro que contemplar luxo e requinte.

Mas há assaltantes e assaltantes. Na Suécia, você jamais vai ser assaltado por um sueco, nem na França por um francês. Nenhum cidadão do país vai arriscar sua liberdade por alguns trocados, nem tem porquê. O assaltante, de modo geral, é o imigrante. Já na Itália, não diria o mesmo. Em Roma, certa vez, procurei um agente de turismo para reservar um hotel em Nápoles.

- Não vá a Nápoles - me disse o agente.
- E por que não?
- É a pior cidade da Itália. Se quiser ser assaltado, vá então a Nápolis.

Argumentei que tinha vontade de conhecer Nápoles. Quem sabe eu ficava nalguma cidade próxima e dava um pulo até lá...

- Qualquer cidade é melhor que Nápoles.

Eu já estava desistindo de ir a Nápoles, quando, notando meu sotaque, o agente observou:

- Claro que não é como no Brasil. No teu país se mata por qualquer trocado. Aqui não se mata. Um assaltante vai ponderar o custo-benefício e não vai trocar sua liberdade por um punhado de euros. Se quiser ir a Nápoles, só ande pela cidade com pouco dinheiro no bolso.

Por questões de horário de trens, acabei passando uma noite em Nápoles. Em verdade, não fui roubado. Mas senti uma ameaça constante ao andar pela cidade antiga. Dia seguinte, dei no pé no primeiro trem para Sorrento. Minha filha que o diga. Ela anda batendo pernas pela Europa e tinha Nápoles em seu roteiro. Repeti toda a história do agente de turismo. Mas ela queria conhecer Nápoles. Acabo de receber este e-mail: "Hoje fomos nos Quartieri Spagnoli e quase saihmos correndo de pavor. Ao entrar na primeira ruelinha uma mulher jah avisou: Atente a le borse. Mas o resto da cidade nao parece tao assustador. Soh eh suja, suja..."

Vivendo e aprendendo. Como dizia o agente de turismo de Roma: "Não vá a Nápoles". Ele conhecia bem a realidade nossa. Aqui vai outra diferença entre o assaltante europeu e o brasileiro. Em minhas décadas de memória, não tenho lembrança de ter visto alguém morto em um assalto na Europa. É possível que tenha ocorrido. Mas é raro. Cá entre nós, mata-se até por dez reais. Um pouco por ódio, outro tanto por ressentimento, mas principalmente por um fator muito caro a marginais: a certeza de total impunidade.

Com outra diferença. Se, na maior parte dos países da Europa o assaltante é o imigrante, entre nós, via de regra, é o nativo. Com o alerta da embaixada francesa a seus concitoyens e concitoyennes, o trabalho do assaltante fica inclusive facilitado. Neste Brasil onde o Estado está proporcionando o aprendizado do inglês às prostitutas para trabalharem durante os Jogos Pan-americanos, não seria demais ensinar aos assaltantes: S'il te plaît, mes cinquante balles. Merci et bon séjour!

É mais simpático e certamente nos dará melhor imagem no Exterior.