¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quarta-feira, abril 11, 2007
 
MERENCÓRIA NOITE DE INVERNO EM PARIS


Certa noite gélida em Paris, eu passava pelas proximidades do Théatre de l'Opéra. Uma senhora, de 50 ou mais anos, frente a um atril com partituras, cantava árias para mim desconhecidas e de uma profunda tristura. Não saberia dizer se cantava com maestria, meus conhecimentos de música não me permitem tanto. Mas que me comoveu, comoveu. Fiquei ali quase uma hora, estático, enregelado, encantado com sua voz de soprano e perplexo com a circunstância. Ela escolhera aquela rua não por acaso. Se não tinha certeza a respeito de seus dotes como cantora lírica, de algo eu tinha certeza: claro que ela preferiria estar no proscênio do Opéra, aquecida pela luz dos holofotes e pelos aplausos do público.

Raros gatos pingados paravam para ouvi-la, sempre deixando alguma moeda. Enternecido por aquele espetáculo gratuito que ela me oferecia, deixei-lhe bem mais que uma moeda. Saí dali com um nó na garganta e conversando com meus botões. Quem sabe o lugar daquela senhora não era mesmo o Opéra? Sabe-se lá! A vida é o mais das vezes madastra. Nem sempre um mortal consegue estar no lugar em que merece estar.

Me ocorrem estas reflexões ao saber que o consagrado violinista norte-americano Joshua Bell, de 39 anos, a convite do jornal The Washington Post, aceitou executar composições em uma estação de metrô da capital norte-americana. A idéia do jornal - leio no noticiário on line - era descobrir se a beleza seria capaz de chamar a atenção num contexto banal e num momento inadequado. Para executar sua música, Bell usou um Stradivarius de 1713, avaliado em U$ 3,5 milhões. Ao longo dos 43 minutos em que tocou, mal conseguiu arrecadar 32,17 dólares. Caso se apresentasse no Boston Symphony Hall, os amantes de boa música não hesitariam em pagar 100 dólares por um assento apenas razoável.

A experiência proposta pelo Washington Post mostra, definitivamente, que as pessoas não se emocionam com a grande arte, mas com a pompa que a envolve. De tempos em tempos, temos notícia que foi encontrado um quadro em algum antiquário, avaliado em quatro ou cinco dólares. Surge então um expert e atesta que o quadro é de um algum Van Gogh da vida. Imediatamente sua cotação sobe para milhões de dólares. A pergunta se impõe: o valor residiria no quadro ou na assinatura de quem o pintou? Cultuamos o belo? Ou a griffe?

Em minha sala, tenho a reprodução de um quadro belíssimo, em amarelo, mostra três pessoas com guarda-chuvas fustigados pelo vento. Achei-o em algum bouquiniste às margens do Sena e paguei por ele dez ou quinze francos. Quem me visita quer logo saber de quem é. O autor não está em história alguma da pintura e duvido que algum leitor o conheça. Trata-se de Leonetto Cappiello. Não era nenhum pintor bafejado pela fama. Apenas fazia a propaganda de uma empresa que vendia guarda-chuvas.

Este nosso mundinho está cheio de obras de arte, pelas quais passamos soberbos, sem sequer dedicar-lhes uma migalha de nosso olhar. Apenas porque não estão em algum museu prestigioso nem em palcos de renome. Registro aqui minha tardia e distante homenagem àquela soprano que cantava solitária em meio a uma merencória e glacial noite de inverno em Paris.