¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sábado, abril 07, 2007
 
QUEM DÁ EXPLICAÇÃO
JÁ PERDEU A DISCUSSÃO




Após o gesto que deixou perplexos todos os que o conheciam, o rabino Henry Sobel parece ter entrado em fase de delírio. As justificativas médicas para o fato de ter roubado cinco gravatas de grife - mal de Parkinson ou Alzheimer, excesso de medicamentos - não conseguem convencer ninguém. Em primeiro lugar, porque duvido existir na literatura médica ou jurídica casos de pessoas com Alzheimer ou Parkinson que saiam por aí a roubar gravatas em lojas de luxo. Em segundo, porque a crise que levou o rabino ao hospital só foi desfechada quando a notícia de sua prisão vazou na imprensa brasileira, cinco dias após o fato. Se não vazasse, o rabino continuaria fazendo suas prédicas - como o fez nesse meio tempo - na santa paz de D'us.

A evidência de dolo em seu comportamento está manifesta no fato de ter voltado ao Brasil e não ter contado à própria mulher que estivera na cadeia em Palm Beach em pleno shabbat. Ela soube da notícia pela imprensa. Isso não é coisa que um homem honesto faça com a pessoa com quem compartilha o leito há décadas.

"Não fui eu que cometi aquele ato" - diz o rabino à reportagem do Estadão - "foi um fato, foi algo que não sei explicar, foi um ato... qual é a expressão? Foi um ato falho, como se diz? Jamais tive a intenção de cometer aquilo. Aconteceu sem controle e sem uma memória precisa dos fatos".

Ora, o rabino Sobel é homem suficientemente culto para saber que atos falhos referem-se a lapsos de linguagem, e não de comportamento. Se declara não saber como explicar, continua tentando se explicar. E acaba se enredando cada vez mais nas tentativas de explicação.

"Eu não estou explicando porque não compreendo. E certamente não posso justificar" - diz o rabino. Já na frase seguinte, tenta justificar-se: "Acredito que houve algo que dominava a minha pessoa naquele momento. E aquele algo, infelizmente, não fui eu mesmo. Em poucas palavras, perdi o controle da dimensão da crise - hoje, plenamente consciente".

O pior vem mais adiante. O rabino parece ainda não ter percebido que destruiu sua vida e sua carreira e não há mais volta. Pretende ainda encontrar-se com Bento XVI, por ocasião de sua visita ao Brasil em maio. "O convite foi reconfirmado. E pretendo, se tiver oportunidade, pedir perdão. Não ao papa, porque não sou católico. Eu peço perdão a mim mesmo e a Deus, o Deus dos judeus". Pelo jeito, perdeu o sentido da lógica. Se quer pedir perdão a si próprio e ao Deus dos judeus, para isso não precisa encontrar-se com o papa. Logo adiante, seu desvario se torna evidente. O homem que não pretende pedir perdão ao papa porque não é católico, afirma:

"Tenho muito carinho e respeito por este papa. Se eu tiver oportunidade de contar minha história a ele, tenho certeza absoluta que ele vai me perdoar. Ao pedir perdão ao papa, simultaneamente, vou pedir perdão ao Deus de Abraão, Isaac e Jacó, o Deus dos profetas, o Deus do povo de Israel. E, por extensão, a meus amigos que sofreram e estão sofrendo comigo".

Afinal, vai pedir ou não vai pedir perdão ao papa? E por que ao papa, que nada tem a ver com sua fé? Se algum perdão quisesse pedir, a instância legítima seria o rabinato brasileiro ou a comunidade judaica. Não o vice-deus católico. O rabino faria um bem para si próprio se permanecesse calado. Entende-se o que deve estar sofrendo. Ocorre que, ao tentar explicar-se, afunda cada vez mais.