¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sexta-feira, maio 04, 2007
 
JORNALISTAS TAMBÉM VENDEM SENTENÇAS



Os jornais do país todo têm denunciado com vigor os juízes que vendem sentenças. O que os jornalistas não percebem - ou fingem que não percebem - é que eles também vendem suas sentenças.

Está entrando em cartaz mais uma dessas idiotices ianques, Homem-Aranha 3, filmeco de quinta categoria que reproduz aqueles heróis tão ao gosto dos americanos, os seres com poderes mais ou menos sobrenaturais. Só em São Paulo, vai inundar 150 salas. Nada contra. Os pobres de espírito também precisam de lazer. O triste é ver jornais como o Estado de São Paulo ou a Folha de São Paulo dando páginas e mais páginas a este lixo que vem do norte.

Não que os críticos de cinema sejam idiotas, a ponto de achar que tais abacaxis têm alguma importância cultural. Nada disso. Todo crítico, hoje, é um profissional poliglota, de grande erudição cinematográfica e bom domínio de texto. Não são bobos, não. São, isto sim, venais. Leia o rodapé das reportagens. Lá está: o crítico fulano de tal viajou a Tóquio a convite da produtora, a Sony Pictures. Os bravos jornalistas voaram até as antípodas só para entrevistar um dos atores do filme. São hospedados em hotéis de luxo, com boca-livre para excelente gastronomia. É claro que tais mordomias sempre terão uma contrapartida, as generosas páginas que se abrem para promover um filme estúpido.

Uma coisa é ser convidado para um festival. O jornalista vai lá, faz suas escolhas e tem um farto leque de filmes para comentar. Outra coisa é ser convidado por uma produtora, para divulgar um filme específico. É claro que você, leitor, não vai ler nenhuma crítica desabonadora ao Homem-Aranha 3. Tais mimos não podem ser ignorados. Se o forem, não haverá mais convites para os bravos jornalistas.

É deplorável que os grandes jornais admitam tais práticas. Todo o discurso indignado da imprensa contra a corrupção de juízes e deputados cai por terra, quando os editores aceitam esta corrupção miúda - miúda, mas não muito - de seus redatores. Enquanto isso, o público é soterrado pela propaganda maciça de um péssimo cinema.

Há duas editorias na imprensa brasileira que sofrem deste mal. Além da editoria de cinema, a de turismo. Os jornalistas que cobrem turismo viajam sempre a convite das operadoras ou agências e, em suas reportagens, procuram vender pacotes burros, para consumo de um público mal informado, que ainda não sabe viajar. E que jamais aprenderá a viajar, no que depender dos cadernos de turismo. Nunca vi um jornalista independente propor uma viagem personalíssima, que fuja às trilhas de gado turísticas que os jornais oferecem.

Pior ainda: como as agências lidam com uma clientela mais ou menos endinheirada, não há preocupação alguma em oferecer ao leitor um turismo menos caro e ao mesmo tempo inteligente. Sempre costumo dar uma olhadela rápida nos cadernos de turismo. È revoltante ver como o leitor é induzido a programas de índio.

Enquanto isso, vai por mim, caro leitor: você está sendo tapeado. Pela forma como a matéria é disposta nos jornais, você pode até pensar que está lendo uma reportagem. Não está. Está lendo matéria paga. Filme louvado por críticos que viajam "a convite da produtora" não podem prestar. Os críticos, muito menos.