¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quarta-feira, maio 02, 2007
 
LINHA DURA EM BONE-BONE



Me escreve um leitor:

Sou um leitor assíduo do seu blog e tenho pelo senhor uma grande admiração. Mas às vezes o senhor é de uma crendice absurda nas pretensas verdades científicas e em estatísticas. O cigarro mata, mas como o senhor e os médicos podem ter a certeza de que alguém morreu porque fumava? Conheco muita gente que fuma há anos e está em melhores condições de saúde que muitos não-fumantes. Quando no mundo não houver mais fumantes, os próximos a serem perseguidos serão os bons de copo. Acredito que em breve só poderemos tomar o nosso chope escondidos da polícia. Estamos vivendo debaixo da tirania da Saúde Perfeita. Quanta gente hoje em dia está morrendo de câncer, inclusive de câncer pulmonar, que nunca fumou um único cigarro! Me diga como o senhor pode ter a certeza que um alguém está morrendo de câncer porque fumava? Me parece que essa condenação do cigarro e do álcool é resquício do velho cristianismo que o senhor diz ser pior do que o marxismo. Não temos mais sacerdotes, temos agora no lugar deles os médicos. Que bela troca!!!!

Nem tanto ao céu, nem tanto à terra, caro leitor. Para começar, o cristianismo não tem, em si, restrições ao cigarro. Algumas denominações cristãs condenam o álcool, mas nem todas. As restrições, tanto ao álcool como ao tabagismo, são de ordem médica. Claro que há pessoas morrendo de câncer pulmonar sem nunca ter fumado. Como há crianças que morrem de cirrose sem nunca terem bebido qualquer álcool. Como também há quem beba e fume e morra aos 90.

Mas as estatísticas sobre a mortalidade dos fumantes estão aí, é só buscá-las. Entre meus amigos e conhecidos, tenho não poucos aleijados pelo tabagismo. Um deles, que parou de fumar há uns bons vinte anos, tem até hoje apenas 22% de capacidade respiratória. Não consegue andar cem metros sem parar para descansar. Todo adulto com acesso a jornais ou televisão dispõe hoje de suficientes informações sobre os males do tabagismo. Se fuma, não pode queixar-se de que não foi alertado.

Não fumo. Nunca fumei. Quando criançola, pus um cigarro na boca e não gostei. Joguei-o fora. Me criei entre fumantes. Todos os homens de meu clã, pai, tios e sobrinhos, fumavam. Não exerceram influência alguma em meu comportamento. Mas não sou radical. Tenho amigos e mesmo namoradas fumantes. Em minha casa, sempre há cinzeiros para quem quiser fumar. Claro que abomino limpar os cinzeiros mais tarde. Mas prefiro limpar cinzeiros a provocar desconforto em uma visita.

Psicólogos, sociólogos e outros ólogos atribuem o tabagismo à influência do cinema. Me criei vendo seriados americanos, onde não se sabia quem fumava mais, se o mocinho ou o bandido. Nunca me ocorreu imitá-los. Há quem fale de propaganda subliminar, que seria transmitida pelos filmes e programas de televisão. Ora, podem atar-me frente a um vídeo ou tela de cinema, podem descarregar em minha mente centenas ou milhares de horas de propaganda subliminar do cigarro. Ninguém me levará a fumar. Verdade que, ultimamente, uma mulher com um cigarro na boca fica um tanto diminuída para mim. Quanto mais bonita, pior. Não consigo conceber uma mulher linda com um cilindro de nicotina enfiado na boca.

Já que tocamos no assunto... Se alguém acha que a Europa está usando de excessivo rigor para com os fumantes, é porque não ouviu falar de Bone-Bone, nas ilhas Celebes, ali à direita de Bornéu, na Indonésia. Leio no Courier International, que Bone-Bone, uma aldeia que se encontra a dois mil metros de altura, seguidamente coberta pela bruma, baniu definitivamente o fumo. Desde há cinco anos. Não há lei alguma que proíba o cigarro. Houve apenas um consenso dos habitantes. Segundo Idris, o chefe da aldeia, "esta decisão não foi fácil de tomar. Esta região fria não oferece muitas distrações à população. Antes, todos os homens e mesmo as crianças tinham o hábito de fumar".

Em Bone-Bone só existe um habitante que ainda fuma, Lagia. Mas respeita o consenso. Quando quer fumar, ele sai da aldeia. "Nós, os habitantes da aldeia, não impomos esta regra a ninguém, e muito menos a Lagia" - diz Idris -. "Nós sabemos que ele não passa bem e por isso jamais o proibimos de fumar. Mas ele se abstem de fumar na aldeia".

Tampouco há sanções para punir habitantes ou visitantes. No que diz respeito aos primeiros, considera-se que a força do consenso é suficientemente dissuasiva. Quanto aos visitantes, por enquanto eles podem fumar em um lugar discreto por três dias. Passado este prazo, eles devem sair de Bone-Bone para fumar.

Em verdade, o ideal da Europa, hoje, é Bone-Bone. Esta é a vontade expressa de seus legisladores. Não é de duvidar que um dia os europeus cheguem lá. Já não estão muito longe disto. Hoje, um fumante deve pensar duas vezes antes de embarcar para o velho continente. Pois certamente terá dissabores.