¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sábado, maio 05, 2007
 
NOOOOO!!!



Nos dias em que escrevi no jornal católico conservador Mídia sem Máscara, tive não poucos debates com jovens católicos fanáticos, que defendiam com unhas e dentes os dogmas da Igreja, inclusive aqueles que sequer conseguiam entender. Roma locuta, causa finita.

Será? Sempre me perguntei se esta moçada, na hora do bem bom, seguia as determinações da Santa Sé. Sexo, por exemplo. A Igreja insiste na virgindade antes do casamento, na castidade e na monogamia. Condena o homossexualismo, proíbe o aborto e o uso de preservativos. Seriam meus jovens interlocutores todos castos, monógamos e heterossexuais? Recusariam todos a idéia de aborto ou de uso da camisinha? Ou suas defesas incondicionais das recomendações da Santa Sé seriam apenas fachada?

A resposta me chegou hoje, através de uma pesquisa feita pelo Ibope, encomendada pela organização Católicas pelo Direito de Decidir, com homens e mulheres de 18 a 29 anos. Durante três meses, foram ouvidas, numa amostragem nacional, 1.989 pessoas. Espero que estes dados não cheguem aos castos ouvidos de Bento XVI durante sua visita ao Brasil. Porque Sua Santidade não iria gostar nada do que as pesquisas revelam. Vamos aos dados.

Questionados sobre o uso de camisinha ou outros métodos contraceptivos, 96% dos jovens que se disseram católicos foram favoráveis ao uso. Entre os que se declararam ateus ou agnósticos, o percentual foi de 97%. Entre os evangélicos, 92%. Se foram favoráveis, é claro que não seria apenas para engalanar o zizi.

79% dos católicos discordam de que as pessoas só devam ter relações sexuais depois do casamento. Ateus, 82%. Ou seja, na hora de prevenir-se contra Aids e demais DSTs, tanto faz crer em Deus ou não. Diga o papa o que quiser sobre sexo e preservativos. A maioria dos jovens católicos não renuncia ao sexo nem aos preservativos.

No que diz respeito ao aborto, certamente a prática mais condenada pela Igreja no mundo contemporâneo, 62% dos jovens católicos afirmaram discordar da prisão de mulheres que cometem o ato. Quando a pesquisa seleciona apenas os católicos com nível superior, o índice chega a 71%. Entende-se então porque a Igreja brasileira não quer nem mesmo ouvir falar de plebiscito. Sabe que sua posição seria amplamente derrotada.

Don Rafael Cifuentes, responsável pela Comissão Episcopal para a Vida e a Família da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), parece ter descoberto a América. Para este príncipe da Igreja, tal comportamento reflete que há muitos jovens que se dizem católicos, mas de verdade não o são. "São jovens que se dizem católicos, mas não praticam o catolicismo. Não é porque a pessoa foi batizada, que se casou na igreja, que ela tem uma prática católica verdadeira. São católicos só de nome".

Como sempre considerei, nossos jovens católicos são católicos só de fachada. Em verdade, não admitem que um papa se intrometa entre seus lençóis. O que me lembra algo ocorrido no Chile, durante uma visita de João Paulo II. O único jornal a relatar este episódio, pelo que me consta, foi o parisiense Le Canard Enchainé. Perorava Sua Santidade às juventudes chilenas.

- Hermanas y hermanos que estáis hoy aquí reunidos! Verdad que renunciáis a las tentaciones de la sociedad de consumo?

Sua Santidade ouviu um sonoro "Sííííí!"

- Hermanas y hermanos que estáis hoy aquí reunidos! Verdad que renunciáis a los placeres del dinero y del poder?

- Sííííí!

- Hermanas y hermanos que estáis hoy aquí reunidos! Verdad que renunciáis a los placeres del sexo?

A multidão fez um profundo silêncio. Sua Santidade repetiu:

- Verdad que renunciáis a los placeres del sexo?

- Nooooo! - foi o que ouviu Sua Santidade.