¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quarta-feira, maio 09, 2007
 
VIGARICES DO VIGÁRIO DE ROMA


Com a segurança de 20 mil policiais, o maior traficante internacional de drogas chegou hoje a São Paulo. E chegou vociferando contra o aborto e a eutanásia. Considerando-se que chega em um momento em que se discute no Brasil a hipótese de um plebiscito sobre a descriminalização do aborto, deixa bem claro que chegou para interferir nas questões internas e laicas de um país. Disse Sua Santidade em seu primeiro discurso: "Estou certo que em Aparecida, durante a Conferência Geral do Episcopado, será reforçada tal identidade, ao promover o respeito pela vida, desde a sua concepção até o seu natural declínio, como exigência própria da natureza humana".

É claro que o vice-deus, do alto de sua curul, não irá dignar-se a dar entrevistas aos pobres mortais. Mas nem só de entrevistas se faz um jornal. Se o vice-deus se recusa a essa prática profana, nada impede que um jornalista mais atilado faça objeções à posição da Igreja ao aborto em tempos idos. Sabemos que até 12 de outubro de 1869, durante o papado de Pio IX, a Igreja nada tinha contra o aborto. Predominava até então o pensamento de dois doutores da Igreja, São Tomás e Santo Agostinho, que adotavam a tese da animação mediata, segundo a qual a alma só se une ao corpo quando o embrião humano está suficientemente formado para poder recebê-la. Ou seja, quarenta dias depois da fecundação no caso de feto masculino, e oitenta dias no caso de feto feminino, no que já vai uma infame discriminação: enquanto o macho já tem alma aos quarenta dias, esse ser inferior, a mulher, só a recebe em prazo dobrado.

A outra tese vigente era a da animação imediata, ou seja, que o embrião recebe, por obra divina, a sua alma racional no momento da concepção. Com Pio IX é consagrada a tese da animação imediata. O aborto, em qualquer momento da gestação, passa a ser considerado como prática injustificável perante a moral cristã, passível de ser castigado com a pena da excomunhão.

Até aí, uma questão de católicos. Seria interessante perguntar então, como a Igreja, depositária das verdades eternas, aceitou o aborto até 1869. Mas nem pergunto. A outra questão, mais contemporânea, é que o aborto passa a ser castigado com a pena de excomunhão. Isto significa que o aborto é pecado que só diz respeito a católicos, pois só católicos podem ser excomungados. A rigor, só quem foi um dia batizado. Mais estritamente, só quem professa a fé católica. Afinal de contas, ser excomungado tanto faz como tanto fez para quem foi batizado por acidente e não mais crê na fé supostamente professada. Crianças são batizadas quando ainda nada entendem, nem podem entender, das questões de fé.

Causa então espécie que o vice-deus venha a este país, oficialmente laico, vender artigos de sua fé. Sua intenção não é advertir seu rebanho contra o pecado do aborto. Mas imiscuir-se numa decisão plebiscitária que só diz respeito a brasileiros. Considerando-se que o Vaticano - aqueles diminutos hectares de Roma ocupados por religiosos misóginos - é considerado um Estado, temos a clara interferência de um chefe de Estado imiscuindo-se nos assuntos de Estado de outro país.

Mas o que mais causa espécie é não ver jornalista algum argüir esta incoerência histórica vaticana, muito menos a interferência do vice-deus em questões nossas. Nossos bravos jornalistas, tão valentes quando se trata de denunciar Judiciário, Executivo ou Legislativo, pelo jeito escondem o rabo entre as pernas quando seria urgente denunciar as vigarices do vigário de Roma.