¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sexta-feira, junho 01, 2007
 
IGREJA ROUBA VIDA DE GOLIARDO



Triste ver um homem chegar ao entendimento só depois de velho. Em verdade, nem falo de entendimento. Ele chegou apenas a algumas descobertas básicas, que seriam muito úteis para a vida em um adolescente de 15 ou 16 anos. Quando se descobre isto já sessentão, a descoberta se torna trágica. Falo de Leonardo Boff.

Em entrevista publicada hoje no jornal espanhol La Vanguardia, define-se como um cigano teológico. Em verdade, sempre foi um goliardo. Por goliardos entende-se aqueles monges medievais, um tanto refratários à Santa Madre, que buscavam os prazeres do século sem renunciar às vantagens conferidas pela infra-estrutura da Santa Madre. Valiam-se de sua condição erudita para compor, clandestinamente, canções satíricas, amorosas e mesmo chansons grivoises, isto é, canções licenciosas. Quem quiser conhecê-los melhor, pode escutar a cantata Carmina Burana, de Carl Orff. Como isto não garante o sustento de ninguém, os goliardos esmolavam em troca de sua arte. Se alguém um dia viu uma tuna cantando pelas noites de Madri ou Barcelona, tem uma idéia do que sejam os goliardos. Com a diferença de que os tuneros não são religiosos.

O goliardo Boff, em vez de chansons grivoises, compôs odes marxisto-teológicas. É considerado um dos teóricos da sedizente teologia da libertação, que em nada agradou o Vaticano. Condenado a não mais lecionar e a manter um silêncio obsequioso, Boff até hoje se lamuria do procedimento inquisitorial da Santa Sé. Em entrevista dada à revista comuno-anarquista Caros Amigos, quando o papa era ainda Wojtyla, disse da Igreja: "Ela mente, é corrupta, é cruel e sem piedade. Ela pega alguém e vai até o fim".

Voltemos à entrevista dada ao jornal espanhol. Diz Boff: "O Vaticano afirma que sem a Igreja não há salvação, e isso é uma arrogância medieval: o espírito de Deus está em todas as partes e Deus, olhando a humanidade, vê todos os seus filhos; não olha só para o Vaticano. Roma tem medo do presente, da diversidade: tem medo da modernidade e do futuro. E se aceitasse que a centralidade não é a Igreja, mas a humanidade inteira, poderia realmente salvar o mundo. (...) Teríamos de aceitar que nenhuma igreja é portadora da única verdade; só assim poderíamos chegar à paz duradoura".

O teólogo goliardo demonstra nada entender de história das religiões. Ou fez gazeta nas aulas sobre judaísmo. Esse Deus universal que olha a humanidade, na concepção de Boff, nasceu em verdade como um Deus nacional, ligado a um Estado. Era apenas um entre os muitos deuses que os judeus cultuavam. Como levou Israel à vitória, tornou-se o deus preferencial do povo judeu. Pouco a pouco, foi-se julgando - ou sendo julgado - ser o único. Ainda assim, continuava sendo o Deus do Estado de Israel. Ele só se universaliza após o império de Constantino. A Igreja Católica apropriou-se indebitamente do deus judaico e passou a considerar-se portadora da única verdade. No dia em que assim não for, o mundo se tornaria certamente mais tolerante, mas a Igreja Católica deixaria de ser a Igreja Católica.

Se a Igreja mente, é corrupta, cruel e sem piedade, isso não ocorreu ontem. Diga-se de passagem, a Igreja mentiu muito mais, foi muito mais corrupta e cruel naqueles idos em que reis se humilhavam para contar com o beneplácito dos papas. É espantoso que frei Boff ignorasse isto. Em suas entrevistas, costuma apostrofar Ratzinger, que cortou suas asinhas quando ainda era cardeal. Gosta de gabar-se de ter estado em Roma, sentado na mesma sala onde estiveram Galileu Galilei e Giordano Bruno, e sendo interrogado pelo futuro papa.

Ora, foi interrogado porque quis. Se a Igreja mente, é corrupta, cruel e sem piedade, Boff devia tê-la abandonado há muito tempo. O frei há muito deixou de ser um católico. O problema destes senhores é que largam a batina, mas não a fé. O teólogo defensor da libertação dos povos, até hoje defende o deus brutal de Israel, que massacrou povos em defesa do Estado de Israel. Se Boff ainda xinga a Igreja, é porque tem saudades dos tempos em que usufruía das mordomias vaticanas ou decorrentes de sua condição de religioso: viagens, cursos, públicos cativos, editoras à mão.

Tenho profunda lástima destas pessoas que só começam a entender o mundo recém no fim da vida. Relacionei-me com muitos sacerdotes em minha juventude, afinal fui congregado mariano (e presidente de Congregação Mariana) e militei na JEC e na JUC. Nesta, minha militância foi curta, afinal minha fé estava se esboroando. Mas conservei contato com alguns daqueles padres, padres que admirei por seu idealismo, e que, tendo tomado contato com jovens, largaram a batina. Certa vez, conversando com um deles, 60 anos, ele deitou a cabeça sobre minha mão e começou a chorar: "eles roubaram minha vida".

Que podia eu dizer àquele homem de 60 anos, que só descobrira o engodo já na última etapa da vida? Quantas milhares de horas teria perdido de gozo sexual, de carinhos de uma mulher? Quantas vezes teria tido de renunciar à razão porque os dogmas assim o exigiam? Quantas vezes teria dobrado a cerviz ao poder imperial de uma instituição medieval e obsoleta? Àquele defroqué, eu nada tinha a dizer. Só a escutar.

A Igreja roubou a vida de Boff. O teólogo goliardo, mesmo depois de velho, parece não ter percebido isto. E continua crendo no velho deus castrado do Antigo Testamento. Largou a batina mas preservou o pior, a fé.