¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quinta-feira, junho 07, 2007
 
UM BOM DIA PARA LER



Mais um feriadão. Nunca falta uma alma desavisada que me pergunte para onde vou no feriadão. Não vou a parte alguma. Em feriadão não saio daqui nem amarrado. São os melhores períodos para curtir São Paulo. Calcula-se que neste sairão 1.300.000 carros. O que deve dar, por baixo, três milhões de pessoas. Um silêncio divino cai sobre a cidade e as ruas internas dos bairros adquirem um ar de Dom Pedrito aos domingos. Verdade que hoje três milhões de fanáticos evangélicos tomarão conta de parte da cidade, numa Marcha para Jesus, que compete em números com a Parada Gay. Mas se eles vão o norte, vou para o sul. A cidade é grande e comporta tanto Cristo como Cristaldo. No que a mim diz respeito, não ocupo muito espaço.

É o bom momento de visitar aqueles restaurantes onde sempre há filas de mais de hora, pôr em dia a agenda cinematográfica e mesmo caminhar pela cidade. Sempre é bom lembrar, é claro, que ficam na cidade uns sete milhões de paulistanos. Pode ocorrer que boa parte deles tenha a mesma idéia que eu, a de visitar aqueles restaurantes onde sempre há filas. Acontece.

A cidade se torna muito confortável nos feriadões. O desconforto segue junto com os paulistanos, para Campos ou para o litoral. Pelas mesmas razões, jamais me ocorreria ir para o litoral nesses períodos. De qualquer forma, se a cidade se torna habitável quando saem 1.300.000 carros, é óbvio que esta cidade tem 1.300.000 carros a mais do que deveria ter.

São 11h45min. Ainda não decidi onde vou curtir o que de melhor a cidade oferece, gastronomia. Penso começar com umas ostras de Cananéia em meu boteco usual e depois partir para a exploração da geografia etílico-culinária da cidade. Minha filha, recém chegada nestas plagas, acaba de ser acolhida generosamente pela Paulicéia. Assinou contrato na Veja e começa a trabalhar na segunda-feira. Boa ocasião para brindar seu feito com um bom vinho. Sem falar que sua vida mansa acabará no domingo. Melhor curtir estes últimos dias de alforria antes que acabem.

Cheguei em São Paulo há 17 anos. Cheguei irritado, de mal com a cidade. No pé de minhas crônicas, assinava: "Janer Cristaldo é jornalista e sofre São Paulo". Até que um dia um leitor me alertou: "pelo que conheço de teu perfil, São Paulo é a melhor cidade no Brasil para ti". Tive de convir que era. E retirei meu mau humor do final de minhas crônicas.

Verdade que, em seu conjunto, a cidade é feia e caótica. Tive de recorrer a um expediente mental para aceitá-la. Passei a considerar que não vivo em São Paulo. Mas em Higienópolis, meu bairro. Não é nenhum Quartier Latin mas tampouco os Quartieri Spagnoli de Nápoles. Dá pra se viver sem maiores irritações. Daqui só saio para alguma incursão aos restaurantes de Pinheiros, Jardins, Vila Madalena. Descobri ser possível viver em uma pequena cidade vivendo em São Paulo. Ir a Moema, Itaim-Bibi, Anália Franco, bairros também nobres, me soa como ir ao Exterior. Ora, se é para ir ao Exterior, melhor começar por Cumbica.

São 11h51min. Hoje é um bom dia para ler. Para ler cardápios. Tim tim, leitor!