¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sábado, junho 02, 2007
 
UM BOM DIA PARA QUÊ?



Uma das coisas boas da vida é manter uma relação afável com as pessoas que nos servem no dia-a-dia. Em meu bairro, sou amigo de todos os garçons, garçonetes, taxistas, donos de banca de jornal. O salão de meu barbeiro é um precioso centro de informações. Freqüentado por delegados, bicheiros e jornalistas, tomo conhecimento de qualquer seqüestro muito antes de a informação vir a público. É uma sala escondida, sem placa nenhuma que a indique. Só vai lá quem sabe das coisas. Na academia onde exercito a carcaça, sou sempre recebido por uma menina de uma doçura inefável, que me envolve com um beijo e um abraço mal chego ao salão. Pequenos detalhes da vida, mas que a tornam mais alegre.

Hoje chove em São Paulo. As ruas de meu bairro estão infestadas de judeus rumo às sinagogas, protegidos por capas de plástico. É shabbat e não podem segurar guarda-chuvas. É um tanto estranho ver senhores bem vestidos e engravatados, portando essas capinhas que os quiosques vendem a cinco reais. Enfim, ortodoxia oblige...

Quando vou comprar meus jornais, a moça da banca me saúda: "oi, meu amor!" Não é mau começar o dia assim. Antes, me explico. Compro jornais por vício incontrolável. Tenho todos os jornais do mundo em minha telinha. Mas não consegui libertar-me ainda do papel. Poderia também assinar os jornais. Eu o faço em parte. Assino um e compro o outro. Se assinasse os dois, não teria o prazer de ouvir todos os dias a moça da banca.

Chove e faz frio em São Paulo. Nesta manhã, ao comprar a Veja para informar-me das últimas corrupções do Planalto, a moça me perguntou: "hoje é um dia bom mesmo para quê?"

Confesso que pensei em muitas coisas, inclusive naquelas eternas e sempre deleitáveis. Mas a pergunta dela era apenas retórica. Antes que eu dissesse alguma inconveniência, ajuntou: "hoje é um dia bom para ler".

Estranha concepção de leitura. Discordei da moça. "Minha querida, eu leio o dia todo todos os dias, faça chuva ou faça sol. Hoje o dia me parece mais propício para um bom vinho entre amigos".

Daqui a pouco estarão chegando. São amigos e amigas de antigas navegações. Quando nos reunimos, é para viajar, discutir sobre cidades longínquas, restaurantes e pratos. Ou teologia, quem sabe. É tema que sempre provoca boas gargalhadas. Planejaremos novas viagens, até mesmo as impossíveis, que para sonhar não se paga imposto. Pessoalmente, estou tentando libertar-me de outro velho vício, o eixo Paris-Roma-Madri. Faz cinco anos que tento escapar deste triângulo e não consigo. Estou com vontade de México neste ano. Mas não sei se vai dar, não. Paris, Roma e Madri continuam a chamar-me, imperiosamente.

Minhas propostas de pauta hoje são duas: um Marqués de Cáceres espanhol e um Casillero del Diablo chileno, carmenère. Começaremos devagar os trabalhos. Nestas reuniões, em geral acabamos discutindo a deriva dos continentes. É quando a mesa começa a girar.

Santé, leitor!