¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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domingo, junho 03, 2007
 
VEJA SE RENDE A
IDEOLOGIAS EM MODA




Existe ou não existe raça? Até bem pouco tempo, as raças existiam, sem que ninguém negasse sua existência. À medida em que o politicamente correto foi-se impondo como ideologia dominante, falar em raça passou a ser uma manifestação óbvia de racismo. Existem seres humanos, não raças humanas. Exceto quando for conveniente, é claro. No Brasil, por exemplo, os movimentos negros haviam abandonado a idéia de raça. Ocorre que, com a instituição da política de cotas raciais, ser negro passou a ser vantajoso. Tivemos então um senador da República que apresentou um projeto para oficializar a segregação racial no país, ao pretender instituir a carteira de identidade negra. Algo assim como o que os nazistas faziam com os judeus. Só que não é mais conveniente lembrar disto.

Quando as universidades brasileiras começaram a copiar a política ianque de afirmação positiva - da qual os americanos já se arrependem amargamente - neste país miscigenado, onde nem sempre é fácil determinar a origem racial de cada cidadão, não faltou branco se declarando negro para obter vantagens nos concursos de seleção universitários. Para impedir fraudes, a universidade de Brasília instituiu a figura de uma espécie de "olheiros", que verificariam a que raça pertence o candidato.

Deus não joga mas fiscaliza. Ocorreu no início do mês passado que dois gêmeos univitelinos se candidataram às cotas, em diferentes cursos da UnB. Um foi considerado negro e o outro não. Os irmãos entraram com recurso, que está sendo analisado e será divulgado na próxima quarta-feira. A enrascada é das boas. Será mais fácil para o senador Renan Calheiros explicar suas relações com a Mendes Ribeiro do que para os olheiros da UnB explicarem seus critérios de avaliação racial.

A Veja desta semana deu capa à affaire, com uma chamada dogmática e contundente:

Gêmeos idênticos, Alex e Alan
foram considerados pelo
sistema de cotas como

BRANCO E NEGRO.

É mais uma prova de que

RAÇA NÃO EXISTE


É surpreendente ver uma revista como Veja caindo na armadilha ideológica dos movimentos negros. Se raça não existe, vamos então parar de falar em dálmatas, buldogs, bassets, beagles, dobermanns, filas, chihuahuas, chowchows, cockers, malteses, pequineses, pitbulls, poodles, yorkshires, São Bernardos, rottweilers. Nem nas mais de 400 raças caninas.

Tampouco se fale mais, quando se trata de cavalos, em raças árabe, crioula, Holsteiner, mangalarga, puros sangues ingleses, espanhóis e lusitanos, lipizzaners, appaloosa e quartos de milha, percherons, paint horses, campolinas, favacho, JB, Bela Cruz. Nem nas mais de 100 outras raças conhecidas.

Abominável racismo falar em bois zebu, Aberdeen-Angus, Nelore, Hereford, Limousine, Brahman, Gir, Guzerá, holandês, charolês. Ou em ovinos merino, Texel, Île-de-France, Suffolk, Hampshire Down, Poli Dorset, Corriedale, Ideal, Laucane, Bordaleira. Tenha também respeito pelos galináceos. Elimine de seu vocabulário palavras como Legorne, D’Angola, Conchinchina, Hamburguesa, Brahma e Plymouth.

Ou alguém pretende que raça só exista no reino animal? Quando surge o Homo sapiens, este ser excelso, tocado pela graça divina, raça deixa de existir? A capa de Veja constitui uma deplorável subserviência a ideologias em moda.