¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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terça-feira, junho 05, 2007
 
WOLFGANG BECKER DEVE ESTAR FELIZ



A vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida, dizia Oscar Wilde. Ao filmar Adeus, Lênin, Wolfgang Becker certamente jamais imaginou que sua personagem - a militante comunista alemã que entra em coma antes da queda do Muro e só volta à consciência depois de 1989 - teria uma contrapartida na vida real.

Leio no Monde que Jan Grzebski, 65 anos, um ferroviário da Polônia comunista do general Jaruzelski, permaneceu em estado de coma durante dezenove anos. Ao acordar, ele descobre que o seu país é hoje membro da União Européia e da Otan. "O mundo é mais agradável agora - diz Jan -. Quando eu fiquei em estado de coma, não se achava mais nada no comércio, a não ser chá e vinagre; a carne estava racionada e havia filas de espera intermináveis nos postos de gasolina. Agora, vejo pessoas nas ruas com telefones celulares e tantas mercadorias nas lojas que isso me dá vertigem".

Jan me faz lembrar as meninas do Leste europeu que conheci em Paris nos anos 70. Recém-saídas do universo da escassez socialista, chegavam no Ocidente com calcinhas de pelúcia. Olhar para uma vitrine de lingerie era uma antevisão do paraíso. Lembro de Ursula, uma terna amiga da pátria de Jan. Abandonara a Polônia para não mais voltar. Em uma excursão para a Iugoslávia, ao passar em uma nesga da Áustria, na primeira parada para uma pipipausa, abandonou ônibus, pátria, família, amigos. Não só ela, mas toda a excursão. No ônibus ficou só o motorista. Na época, isto significava abandonar seu passado para sempre. Certo dia, chegou em meu studio feliz, com os braços cheios de prospectos turísticos. Que vais fazer com isso? - perguntei. Mal tens dinheiro para o metrô. "Aqui eu posso sonhar, meu urso tropical. Lá na Polônia, nem sonhar eu podia".

Em 79, fui a Berlim fazer a cobertura do Festival de Cinema. Convidei Ursula. Entrou em pânico. Entre a Alemanha Ocidental e Berlim havia o território da Alemanha Oriental. Ela iria, mas não de trem. Tinha medo de ser recambiada à Polônia. Foi de avião e me pediu que rezasse, para que nenhum acidente a obrigasse a pousar em território da Alemanha Oriental. Preferia morrer a voltar à Polônia. Em Berlim, convidei-a a ir até o Checkpoint Charlie, um dos pontos fronteiriços entre as duas Alemanhas. "Nem morta. Dessa fronteira só quero distância".

De certa forma, a experiência de Jan é invejável. Claro que não deve ser nada aprazível passar dezenove anos em coma. Jan tinha um tumor no cérebro e não conseguia movimentar pernas nem mãos, nem levantar a cabeça. Mas não é dado a qualquer mortal adormecer no inferno e acordar no paraíso. Quando acordamos de um pesadelo, nossa sensação é de alegria ao tomar consciência de que o pesadelo era sonho. No caso de Jan Grzebski, o pesadelo era a realidade.

Wolfgang Becker deve estar feliz.