¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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terça-feira, julho 10, 2007
 
BENTO XVI RIDES AGAIN



Quando Lula faz uma pausa em seus despautérios, o papa, solícito, se apresenta para substituí-lo. O Vaticano publicou hoje documento intitulado Repostas a questões relativas a alguns aspectos da doutrina sobre a Igreja, afirmando que a Igreja Católica é, sempre foi e será a única igreja de Cristo. "Cristo constituiu sobre a terra uma única Igreja e instituiu-a como grupo visível e comunidade espiritual, que desde a sua origem e no curso da história sempre existe e existirá", diz o texto. "Esta Igreja, como sociedade constituída e organizada neste mundo, subsiste na Igreja Católica, governada pelo sucessor de Pedro e pelos bispos em comunhão com ele".

Ora, Cristo não constituiu nada. A partir de um trocadilho - como direi? - divino, os católicos pretendem que a Igreja tenha sido instituída por Cristo. "Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja", lemos em Mateus. É muito pouco. A Igreja foi-se constituindo lentamente, após a morte do Cristo e sobre seu cadáver, com sua teologia, seus sacramentos, os Livros Santos, as reuniões litúrgicas, a propaganda oral através das homilias, uma moral, dogmas. É o que deduzimos da leitura de Paul Veyne, em Quand notre monde est devenu chrétien (312-394). Comentando a obra-prima que constituiu a construção da Igreja, escreve o historiador:

"Além do mais, era preciso confessar sua fé e respeitar a Lei divina, era preciso crer nos dogmas e nos relatos sagrados, na Queda, na Redenção, na Ressurreição. Um cristão que atravessava uma crise de fé a este respeito não dispunha do recurso que tinham os pagãos, o de considerar como invenções de poetas o que lhes parecia inacreditável em seus mitos. Aparecerão então outras novidades: querelas teológicas, heresias, cismas e sua repressão".

Antes disto não se pode falar em Igreja Católica e é justamente esta máquina formidável que esmaga as crenças pagãs, que nunca se preocuparam em criar um corpo doutrinário para a defesa de seus deuses. Será apenas com Constantino, três séculos após a morte do Cristo, que a Igreja toma corpo:

"Legalizando a Igreja, ao estabelecê-la e favorizá-la, fazendo dela sua religião pessoal - continua Veyne -, Constantino fortificará um organismo completo que iria enquadrar e cristianizar pouco a pouco a massa da população e mesmo enviar missionários aos povos estrangeiros. Porque o cristianismo tinha uma outra particularidade, era proselitista, enquanto que o paganismo e o judaísmo raramente tentaram persuadir os outros a adotar suas divindades".

A Igreja não foi criada por Cristo e sim por pósteros seus, que empunharam seu cadáver para conquista e manutenção de poder. Sempre é bom lembrar que as palavras "católica" ou "catolicismo" não existem em toda a Bíblia, nem no Velho nem no Novo Testamento. Nem mesmo a palavra cristianismo. Temos, isto sim, alguma referência a cristãos, e a primeira delas surge nos Atos dos Apóstolos, muito tempo após a morte do Cristo: "Partiu, pois, Barnabé para Tarso, em busca de Saulo; e tendo-o achado, o levou para Antioquia. E durante um ano inteiro reuniram-se naquela igreja e instruíram muita gente; e em Antioquia os discípulos pela primeira vez foram chamados cristãos".

Também é bom lembrar que os católicos se apossaram de um livro que pertencia a outra religião, o judaísmo, sem a mínima preocupação em pedir ou pagar direitos autorais. Aos relatos do Antigo Testamento, sobrepuseram as histórias de Cristo e seus continuadores. Se a Igreja romana não viu maiores problemas em se apossar do livro antigo que narrava as façanhas de Jeová, não pode hoje queixar-se que outras denominações cristãs se apossem do Novo Testamento.

O Vaticano pode berrar urbi et orbi que a Igreja Católica é a única de Cristo. O mesmo dirão o bispo Edyr Macedo e o "missionário" R. R. Soares. Todos têm, ao mesmo tempo, toda e nenhuma razão.