¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

Powered by Blogger

 Subscribe in a reader

quarta-feira, julho 04, 2007
 
... E UMA DE TREM



Há dois anos, peguei o Thalys - trem de alta velocidade que faz percursos no Benelux - em Bruxelas, rumo a Paris. A viagem dura pouco mais de hora e é das mais confortáveis. Na partida, ocorreu um atraso de vinte minutos. Ao chegar em Paris, um funcionário da empresa distribuía formulários a todos os passageiros. Mais por curiosidade, peguei e perguntei para que servia. "É que o trem atrasou vinte minutos. É para o senhor solicitar indenização pelo atraso".

Na volta para o Brasil, voltei pela malsinada Varig. Sempre a evito, mas dado meu roteiro naquele ano, a Varig era a empresa que melhor me convinha. O vôo atrasou duas ou três horas. Uma senhora Argentina manifestou sua preocupação a um oficial de bordo, temia perder sua conexão para Buenos Aires. O comissário foi objetivo: "Não tem problema. A senhora entra com ação na Justiça".

Civilização e barbárie. No Canadá, uma empresa que já cumpriu seus deveres para com os passageiros prejudicados pelo overbooking, oferece mais uma passagem de ida-e-volta como compensação pelos aborrecimentos, para a família e para mais um terceiro filho que sequer participara do primeiro vôo. Na China, que ainda não saiu de sua condição de Terceiro Mundo, uma empresa usa da mesma finesse canadense, só porque um cliente quebrou o pé aleatoriamente, sem que a empresa nada tivesse a ver com isso. Na Europa, uma empresa se apressa a oferecer indenização, já na chegada do trem, aos passageiros que tiveram um atraso... de vinte minutos.

Já a Varig é mais curta e grossa: entre com ação na Justiça. Imagine uma senhora Argentina, tendo de procurar e constituir advogado no Brasil, na tentativa de receber, sabe-se lá daqui a quantos anos, um pífio ressarcimento pela perda de um vôo.

Não vai nisto uma acusação específica à moribunda Varig. Todas as empresas aéreas no Brasil estão usando e abusando da mesma falta de respeito ao usuário. A falta de respeito faz parte da alma nacional. Os passageiros têm sido tratados como gado ou mesmo pior. O gado exige alimentação durante o transporte e os passageiros que ficam a ver aviões nos aeroportos nem sempre têm sido alimentados.

Há um motim nas Forças Armadas do país e governo trata o motim como uma banal questão sindical. E mente desbragadamente para ocultar a idéia de motim. Afinal, quem usa transporte aéreo constitui apenas 8% da população brasileira. E Lula conta com o apoio de 60% desta mesma população.

Quanto aos 8%, que vão lamber sabão.