¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

Powered by Blogger

 Subscribe in a reader

quinta-feira, julho 12, 2007
 
METODOLOGIA DE PESQUISA HISTÓRICA INOVA



Segundo o censo de 2.000, a cidade de São Paulo ocupa o primeiro lugar em concentração de favelas (612), seguida de Rio (513) Fortaleza (157), Guarulhos (136), Curitiba (122), Campinas (117), Belo Horizonte (101), Osasco (101), Salvador (99) e Belém (93). Ou seja, umas duas mil favelas. Sabe-se que, só no Rio, surge uma favela a cada mês. Não me parece despropositado afirmar que, somadas as favelas das capitais e grandes cidades, por baixo tenhamos hoje umas cinco mil favelas no Brasil.

Em artigo publicado nesta quinta-feira no jornal The Guardian, o historiador britânico Timothy Garton Ash vislumbra no Brasil "um futuro possível onde exista apenas uma raça. (...) O Brasil é um país onde as pessoas celebram, como atributo nacional, a riqueza da miscigenação, dando um significado positivo ao que, nas suas origens, era tratado como uma deturpação norte-americana".

Como chegou o arguto historiador a esta brilhante conclusão? Sua metodologia é simples e revolucionária. Esteve na favela da Cidade de Deus, no Rio, onde diz ter visto "cada matiz e variedade de rostos, algumas vezes na mesma casa". A Cidade de Deus é uma entre as mais de quinhentas favelas do município do Rio de Janeiro, uma entre as prováveis cinco mil ou mais favelas do país. Se a Cidade de Deus é assim, assim também é o Brasil. É um método sem dúvida inovador na historiografia.

De sua observação sobre uma única favela, o historiador conclui que o Brasil é "futuro onde só haverá uma raça". Alvíssaras. Pelo menos admite a existência de raça, conceito que nestes dias politicamente corretos só diz respeito a animais inferiores. O Homo sapiens, esta primícia da evolução, segundo o pensamento contemporâneo dominante, foi excluído deste estigma. Em se tratando de gado, podemos falar de Aberdeen-Angus, Nelore, Hereford, Limousine, Hampshire Down, Poli Dorset, Corriedale, Ideal, Laucane, Bordaleira. Ao surgir o nobre espécime coroando a evolução, as raças deixam de existir.

Como Cristo redime a humanidade do pecado original, os movimentos negros pretenderam redimir esta mesma humanidade da pecha original, a raça. Não existe mais negro nem branco nem mulato, nem mongol nem hotentote. Este era o pensamento vigente, pelo menos antes da instituição das cotas universitárias. Hoje, de repente, não mais que de repente, a raça negra voltou a existir. Que mais não seja, para entrar na universidade passando por cima de brancos mais talentosos.

"Eu fui ao Brasil - diz o historiador - perguntar sobre pobreza, exclusão social e desigualdade. Em poucos minutos, meus interlocutores estavam falando de raça". Ora, eu imaginava que raça nem mais existia. A discussão sobre raça está virando uma espécie de discussão sobre Deus. Existe ou não existe? Se os intelectuais ainda não chegaram a uma conclusão definitiva sobre a existência do primeiro, seria bom que logo chegassem a uma conclusão sobre a existência da segunda. Pois esta segunda definição já está gerando conseqüências jurídicas. Se os pensadores políticos achavam que todos os homens são iguais perante a lei, enganavam-se. Negro vale mais.

Na verdade, o historiador pouco está preocupado com a verdade, seja histórica, seja biológica: "No passado, as pessoas tenderam a se definir do lado mais claro do espectro, especialmente à medida que se tornavam mais prósperas. Se as cotas resultarem em mais pessoas preferindo considerar-se negras, que seja. Depois de tantos séculos de escravidão, faria sentido colocar um pouco de peso do outro lado. E se isto significar que um dia uma garota que todos enxergam como branca requisitar sua entrada na universidade como negra, boa sorte para ela".

Ash admite a existência de raças. Mas se for para beneficiar um negro - ainda que em detrimento de um branco - tanto faz como tanto fez. Uma pessoa pertence à raça que, em determinado momento, lhe for mais conveniente. É uma interessante inovação na metodologia da pesquisa histórica.