¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sábado, julho 07, 2007
 
O CONSTRUTOR DE MISTÉRIOS

(crônica de Ney Messias*)



Há grupos de trabalho investigando por todos os lados. Mas tudo que investigam diz respeito a bens vitais: a carne, o leite, o vestuário, as estradas, os viadutos. Se me perguntassem o que é que um grupo de trabalho deveria investigar com prioridade absoluta, responderia sem hesitar: a maneira mais fácil e urgente de construir mistérios. O grande mal do mundo é a ausência sistemática do misterioso, e a mania demasiadamente científica de desmanchar tudo aquilo que ainda apresenta uma face misteriosa. Claro que o grande sentido da vida é dado pelo mistério da decifração: não existe trabalho que não seja, em certo sentido, a procura da chave de uma charada. Pois se a vida é uma constante decifração do mistério, tão importante é o próprio ato de decifrar como a existência da coisa misteriosa.

Por isso os viventes estão divididos em duas espécies, os que decifram mistérios e os que criam mistérios. O grupo dos primeiros está aumentando, e diminuindo a falange dos segundos. Por isso estamos constantemente nos aborrecendo, e tentando, sobre os destroços dos mistérios destruídos, erguer outros para a nossa fome especial de incógnitas. Acreditamos nos discos voadores, na serpente do lago Ness e no Iéti, aquele abominável homem das neves, por absoluta necessidade de ter um mistério à disposição das nossas almas, um mistério que valorize a plana e tediosa sucessão de horas que nos consomem e dos bifes que consumimos.

Penso que haverá um dia de generalizar-se o uso da mescalina, da maconha e outros alucinógenos exatamente porque, com essas drogas, podemos penetrar em mundos desconhecidos e indecifráveis.

Não é nada difícil criar mistérios. Descobri isso quando era muito menino, ainda na época em que as crianças furtam os doces do armário misterioso da varanda. Foi assim: naquela época remota, e não de muitas abundâncias, abriram em minha casa uma lata de compota de abacaxi. Por qualquer motivo o doce ficou na própria lata, à espera da hora da janta. Quando foram servi-lo à noite, com espanto verificaram que a caldas toda tinha desaparecido, o abacaxi estava seco. Passei a escutar, então, as teorias mais desencontradas a respeito do fenômeno. Uma criada que tinha pavores noturnos, ligados sempre aos vampiros, levantou a hipótese de um animal desses ter sugado a calda. Minha mãe pensava que o suco tinha evaporado com o calor. Uma prima levantou a teorias, mais complexa, segundo a qual,em contato com o ar, o abacaxi mesmo se punha a sugar a sua própria calda, teoria que grangeou alguns adeptos, embora fosse evidente que a compota estava seca de verdade. E eu, que havia bebido de um sorvo só aquela calda, fiquei a assistir a cópia de teorias, aquela soma fabulosa de filosofias a respeito do fato de ter secado uma compota de abacaxi. Nunca esqueci o episódio, e é por isso que sei o quanto não é difícil criar mistérios, e o quanto é fácil destruí-los: bastava que eu dissesse que havia bebido a calda para destruir a graça daquela história.

E nisso que penso quando leio que o Chanceler da Cúria Metropolitana da Guanabara, cônego Castelo Branco, falando da substituição da tradicional hóstia pela broa, declarou reconhecer que as modificações introduzidas na missa irão a princípio chocar os católicos... mas "por outro lado, a Igreja conseguirá tirar do povo a impressão de mistério sobre seus ritos tradicionais". É bem assim que ele diz, não lamentando, mas gabando o afinco com que se põe a Igreja a espancar as brumas que coroam o seu lago de mistérios. Não tenho nada com isso. Apenas sorrio de quem se gaba de esfacelar mistérios, tanto mais quanto o que os esfacela é o mesmo que os deve guardar e preservar. Se lhe pudesse dizer pessoalmente alguma coisa diria que o único momento em que me senti sacerdote, e criador, foi aquele em que, menino, bebi às escondidas a calda de uma compota de abacaxi.

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(*) Esta crônica está publicada na antologia O Construtor de Mistérios, organização e compilação de Janer Cristaldo, Editora Garatuja, Porto Alegre, 1976.