¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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terça-feira, julho 10, 2007
 
SOBRE O PROVERBIAL
MAU HUMOR FRANCÊS




Paris comemorou ontem o Dia do Turista, com uma campanha que visa melhorar a fama de que, apesar de ser a cidade mais visitada do mundo, é uma das menos acolhedoras. De acordo com a Secretaria de Turismo de Paris, a idéia é encorajar os parisienses a serem mais educados, prestativos e acolhedores com os turistas.

Não passa ano sem que alguém me reclame da grosseria dos parisienses. Curiosamente, muitas vezes quem reclama é pessoa que jamais esteve na França. Vai ver que tenho algum charme especial, pois vivi lá por quatro anos, vou a Paris praticamente todos os anos e - salvo uma exceção - sempre fui bem tratado pelos parisienses. Particularmente pelos garçons. Um que me deixou a melhor das impressões, encontrei no café Select Latin, de Montparnasse. Mal sentei, ele me abordou:

- C’est vrai, Monsieur! Qu’est-ce que vous désirez?

Fiquei um tanto perplexo, mas não por muito tempo. Eu tinha nas mãos um livro de Arthur Koestler, intitulado Les Hommes ont soif. O garçom era ágil. Bem entendido, sempre falo francês com eles. Não sei como reagiriam se fossem interpelados em português, por exemplo. Eu vi, juro que vi, uma turista pedir ao garçom:

- Eu que-ro ga-li-nha. Ga-li-nha.

Escandindo bem as sílabas para que o garçom entendesse. Juro que vi. A turista em questão era uma advogada e, por essas questões fortuitas da vida, estava sentada com seu marido em minha mesa. Vontade é o que não me faltou de me jogar no Sena. Quando ouço essas manifestações abissais de caipirice, uma dor cava me percorre a barriga. Fosse eu o garçom, creio que minha reação não seria lá muito gentil. Você pode achar que esse tipo de turista é raro. Não é, não. Brasileiro que acha que as demais nações do mundo devem entender sua língua é o que não falta na Europa.

Fiz amigos e amigas na França, sempre fui acolhido com afeição. Em países como a Inglaterra e Alemanha, encontrei cortesia em alguns interlocutores ocasionais, mas uma cortesia polida e fria, como de alguém que se dirige a um oriundo de uma cultura inferior. Jamais vi esta postura em Paris. Verdade que o parisiense tem um certo ar de quem vive no centro do mundo. Bom, não deixa de ter razão. Se o mundo tem centros, Paris é um deles.

Encontrei grosseria, isto sim, junto a funcionários públicos - e esta era a exceção a que me referia. Principalmente junto aos funcionários do CROUS, entidade que tinha por função receber-nos, já que éramos bolsistas. Foram os funcionários - melhor dizer funcionárias, já que todos eram mulheres azedas, rabugentas e aparentemente virgens - que mal viam uma deficiência idiomática no bolsista, logo se punham a humilhá-lo. Vi árabes e africanos sendo pisoteados e aquilo me doía por dentro. Mas comigo não conseguiram exercitar seus sórdidos prazeres. Sempre dominei bem o francês.

Quando cheguei, no primeiro mês me hospedei no folclórico Grand Hotel Saint Michel, que de Grand não tinha nada, a não ser a sujeira. Ficava na Rue Cujas, a poucos metros da Sorbonne. Era um hotel de uma estrela - hoje tem duas ou três - capitaneado pela também folclórica Madame Salvage, que teria entre seus queridos boa parte da literatura e das artes latino-americanas, desde Diego de Rivera e Pablo Neruda a Jorge Amado. Esse primeiro mês deveria ser-me reembolsado pelo CROUS. Quando apresentei a conta, uma das senhoras azedas - que apelidei de Passe-Muraille - fez uma observação:

- Mais vous êtes dans un hotel très cher, Monsieur.

Passe-Muraille é um personagem de Marcel Aymé, modesto empregado da administração que descobre a possibilidade de passar através de paredes. Ele utiliza este dom para cometer roubos e vingar-se de humilhações, até o dia em que perde seu poder e fica encerrado em uma parede. Olhando minha interlocutora, a impressão que ela me passava é que atravessaria paredes sem que as paredes notassem. Ora, eu estava numa das pocilgas mais baratas de Paris. Revidei:

- Moins cher qu’une étoile, Madame, il n’y a que à la belle étoile.

Belle étoile quer dizer "ao relento". Menos caro que uma estrela, só ao relento. Sentindo meu domínio da língua, nunca mais me incomodou. As moças se tornavam mais agressivas quando chegava julho e agosto. Era o fator verão. Elas, que sabiam muito bem que apanhávamos nossa bolsa para viajar para ilhas gregas ou canárias, apesar de estarmos proibidos de sair do país, tinham de ficar em Paris, atrás de um balcão, contando aquelas cédulas novinhas de francos que serviriam para nosso lazer. Até que se entende o mau humor.

Pierre Daninos, em Carnets du Major Thompson, faz um pertinente paralelo entre franceses e americanos. Um americano, diz Daninos, ao ver alguém em um carro de luxo, pensa: que maravilha, vamos construir uma sociedade onde todos possam um ter um carro como aquele. A visão do francês é outra: que fedapê! Vamos construir uma sociedade onde todas as pessoas andem a pé como eu. Isto é fato. O francês é um cidadão que tem o coração à esquerda. Mas isto não se traduz em descortesia para com estrangeiros.

Confesso que este comportamento das funcionárias do CROUS foi a única manifestação de azedume que vi nos parisienses. Mas era um azedume muito localizado, típico de mal-baisées que não suportavam a idéia de ver alguém feliz. Assim, quando alguém me fala no "proverbial mau humor dos franceses", a impressão que tenho é que não foi na França que vivi quatro anos.

Esta percepção é a de um brasileiro. É claro que um árabe ou africano terá uma visão bastante distinta dos franceses. Mas árabe ou africano, normalmente, não é turista. É imigrante.