¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

Powered by Blogger

 Subscribe in a reader

sábado, julho 07, 2007
 
TRENTO, VOLVER!



- Introibo ad altare Dei - dizia o padre.
(Vou aproximar-me do altar de Deus).
- Ad Deum qui laetificat juventutem meam - eu respondia.
(Do Deus que é minha alegria).

Não, nunca fui sacristão. Mas estudava latim em colégio de padres e conhecia toda a missa em latim. Assim sendo, eu não repetia uma fórmula vazia ao recitar o latinório, mas tinha perfeita consciência do que dizia.

- Judica me, Deus, et discerne causam meam de gente non sancta: ab homine iniquo et doloso erue me.
(Julgai-me, ó Deus, e separai a minha causa da causa da gente ímpia. Livrai-me do homem injusto e enganador).
- Quia tu es, Deus, fortitudo mea: quare me repulisti, et quare tristis incedo, dum affligit me inimicus?
(Pois vós, ó meu Deus, sois a minha força. Por que me repelis? Por que ando eu triste, quando me aflige o inimigo?)


O Vaticano publica hoje um pronunciamento há muito aguardado do papa Bento XVI, reinstituindo o uso da antiga missa em latim, prática rejeitada em 1969 em favor da missa celebrada na língua de cada país. Segundo o Financial Times, o documento, chamado motu proprio, porque trata de uma iniciativa pessoal do papa, está provocando inquietude entre os católicos liberais, que vêem nele uma neutralização das reformas resultantes do Concílio Vaticano II, de 1962 a 1965. Acredita-se que a medida encoraje os bispos a permitir que as igrejas celebrem as missas de acordo com o antigo livro de orações em latim, padronizado no Concílio de Trento de 1945 a 1963, e desativado após o Vaticano II.

Adolescente, eu achava que Deus falava latim e me sentia um privilegiado ao responder-lhe em latim. Aquela língua morta, morta e ao mesmo tempo universal, dava uma dignidade à missa que foi totalmente perdida após o Vaticano II. A maioria dos fiéis não entendia patavina do que o oficiante dizia e isto, a meu ver, tornava mais imponente e misteriosa a função do sacerdote: só ele conhecia o idioma divino. Fé não é para ser entendida. Quando entendemos a fé, ela murcha, se desidrata. Terá sido por isso que muito cedo tornei-me ateu. Quando a missa passou a ser rezada em vernáculo, desde há muito eu me havia afastado da Igreja.

Hoje, olhando à distância estas cisões entre crentes, penso que os tais de católicos liberais estão vendo tempestade em copo d’água. Ao ser oficiada em língua inteligível, a missa perdeu a graça e o sacerdote também. Quando em latim, víamos no sacerdote um sumo intérprete, o homem que conhecia o idioma através do qual falávamos com Deus. Suas palavras soavam a arcano. Hoje, decifrado o besteirol oculto pelo latim, a missa vira um samba do crioulo doido metido a místico. Que bobagem é essa de separar minha causa da causa de gente ímpia? Quem é mesmo essa tal de gente ímpia? Que tenho eu a ver com eles? Por que andaria eu triste quando me aflige o inimigo? Que mal não pergunte: que inimigo?

O que a Igreja contemporânea parece não ter entendido é que os homens adoram cultuar o que não entendem. O que explica o êxito milenar da Santa Madre, que sobreviveu dois milênios com dogmas que ultrapassam todo humano entendimento, como o da Santíssima Trindade ou da virgindade de Maria. Com a volta à missa tridentina, a Igreja voltará a ser como fora, misteriosa e ininteligível ao senso comum. Talvez assim recupere a aura que vem perdendo no mundo todo. O ser humano não acha graça no que entende. Acha que tudo que entende deve ser raso. Daí o sucesso das religiões. O Bento é mais malandro do que parece.