¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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domingo, agosto 12, 2007
 
ARTICULISTA AINDA VÊ
GUERNICA, DE PICASSO, COMO
HOMENAGEM A GUERNICA




Comentando o livro A Batalha pela Espanha, na última edição de Veja, Rinaldo Gama escreve que o autor, Antony Beevor, "escapou da armadilha maniqueísta que transformou esse conflito numa luta entre democracia e civilização, simbolizadas pelos republicanos, contra o autoritarismo e a barbárie, dos quais os franquistas são sinônimo". Por republicanos, entenda-se os comunistas que quiseram fazer da Espanha uma republiqueta soviética. Ora, que os franquistas tenham sido associados a autoritarismo e barbárie, isto se vê nos livros de História do século passado. Mas desconheço autor que tenha conseguido associar os comunistas espanhóis a democracia e civilização.

Como todo jornalista contaminado pelo pensamento de esquerda, Rinaldo não poderia deixar de ver em Guernica, "o horror imortalizado no quadro de Pablo Picasso, que leva o nome da cidade".

Vou repetir pela enésima vez, e repetirei sempre que um jornalista repetir tal despautério.O mundo todo crê que Guernica foi um quadro pintado por Picasso em homenagem ao bombardeio da cidade basca de Guernica, embora no quadro não se encontre nem sombra de bombas, bombardeios ou cenas de guerra. Os fatos foram bem outros. Picasso havia pintado uma tela de oito metros de largura por três e meio de altura, intitulada La Muerte del Torero Joselito, plena de cores fúnebres, que iam do preto ao branco, em homenagem a um amigo seu, o toureiro Joselito, morto em uma lídia. O quadro ficara esquecido em algum canto de seu ateliê. Ao receber uma encomenda para o pavilhão republicano da Exposição Universal de Paris de 1937, Picasso lembrou do quadro. Foi quando Guernica foi bombardeada pela aviação alemã. Oportunista genial, o malaguenho não teve dúvidas: titulou o quadro como Guernica.

De uma só pincelada, o vigarista espanhol traiu a memória do amigo e mentiu para a História. E até hoje não há jornal que não ponha um aposto explicativo, quando ao quadro se refere: pintado em homenagem ao massacre de Guernica pelos nazistas. Multidões desfilam ante o embuste em Madri, conduzidas por solícitos guias que acreditam ver campos de guerra em cenas de arena. Os guias não só acreditam como induzem as massas de crédulos a acreditar na versão bélica proposta por Picasso.

(Esta postagem foi reescrita a partir de uma observação do leitor Roberto Vegeneroles, que observou no artigo original um equívoco de minha parte).