¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quarta-feira, agosto 15, 2007
 
BENTO XVI CONTRA DRAGÃO VERMELHO




A Bíblia é bastante contraditória quando se refere a Satanás. Em Jó, por exemplo, Jeová conversa com ele afavelmente, como se fosse um de seus filhos:

"Ora, chegado o dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o Senhor, veio também Satanás entre eles. O Senhor perguntou a Satanás: donde vens? E Satanás respondeu ao Senhor, dizendo: de rodear a terra, e de passear por ela".

Não há, neste bíblico momento, nenhuma alusão condenatória ao demônio. Em Isaías, ele é saudado com muita admiração: "Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filho da alva! Como foste lançado por terra, tu que prostravas as nações!"

Em João de Patmos, o demônio muda de figura:

"Viu-se também outro sinal no céu: eis um grande dragão vermelho que tinha sete cabeças e dez chifres, e sobre as suas cabeças sete diademas; a sua cauda levava após si a terça parte das estrelas do céu, e lançou-as sobre a terra; e o dragão parou diante da mulher que estava para dar à luz, para que, dando ela à luz, lhe devorasse o filho.

'E deu à luz um filho, um varão que há de reger todas as nações com vara de ferro; e o seu filho foi arrebatado para Deus e para o seu trono. E a mulher fugiu para o deserto, onde já tinha lugar preparado por Deus, para que ali fosse alimentada durante mil duzentos e sessenta dias.

"Então houve guerra no céu: Miguel e os seus anjos batalhavam contra o dragão. E o dragão e os seus anjos batalhavam, mas não prevaleceram, nem mais o seu lugar se achou no céu. E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, que se chama o Diabo e Satanás, que engana todo o mundo; foi precipitado na terra, e os seus anjos foram precipitados com ele".

De companhia afável, de estrela da manhã e filho da alva, Satanás se transforma em grande dragão vermelho, que engana todo mundo. Foi esta última acepção a empregada por Bento XVI, em sua homilia improvisada ontem na missa da Assunção, na igreja de seu palácio de férias de verão, Castel Gandolfo. Segundo o papa, o dragão do materialismo não é invencível, apesar das aparências, pois Deus é mais forte.

Criado Deus, criado estava Satanás. O mal e o sofrimento existem no mundo e não fica bem atribuí-los ao criador de todo universo. Urge um bode expiatório. Terá sido assim que o coitado do Satanás passou de filho da alva a dragão vermelho. Este é o responsável pelas "grandes ditaduras do século passado, o nazismo e o stalinismo". Só faltou Bento dizer que o velho Jeová, que massacrava e enviava flagelos sobre a humanidade, foi o responsável pela democracia. Astutamente, o papa também preferiu não se referir às ditaduras que se perpetuam neste século. Não é prudente associar eventuais parceiros ao demônio.

"Hoje o dragão existe sob formas diversas - prossegue Bento - nas ideologias materialistas que nos dizem ser absurdo pensar em Deus, observar seus mandamentos descritos como ultrapassados, e que é preciso pegar o que se apresenta. Parece impossível opor-se a esta mentalidade dominante com toda a força midiática que ela dispõe, o dragão parece de novo invencível. Mas Deus é mais forte que o dragão e é o amor que ganha e não o egoísmo".

Falar de materialismo no conforto da residência papal de Castel Gandolfo, que se debruça preguiçosamente sobre o lago vulcânico de Albano, 25 quilômetros ao sul de Roma, é luxo que um só um pontífice se permite. Castel Gandolfo é a maison secondaire de Sua Santidade. Para seu dia-a-dia, Bento XVI dispõe de um dos mais esplendorosos palácios de toda Europa, o Vaticano. Para seus banhos de multidão, sempre leva em seu avião privativo uma Mercedes especialmente desenhada para suas locomoções. Quando chega a qualquer país, as cidades estrangulam seus sistemas de tráfego para recebê-lo.

É sem dúvida muito confortável condenar, do alto desta pompa toda, o dragão vermelho do egoísmo.