¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sábado, agosto 11, 2007
 
GUERRA CIVIL ESPANHOLA
ESTÁ LONGE DE ACABAR




Pelo jeito, a Guerra Civil Espanhola está longe de ter acabado. Está sendo construído em Valencia um monumento em homenagem às centenas de religiosos assassinados pelos comunistas entre 1936 e 1939, que já está sendo chamado de "o santuário dos mártires valencianos". O prédio, de 3000 m2, será recoberto de ladrilhos de faiança coloridos e poderá acolher 900 fiéis.

Para a Asociación por la Recuperación de la Memória Histórica (ARMH), de Valência, que se opõe à decisão da prefeitura, o santuário é uma dupla provocação. A prefeitura quer expandir o atual cemitério sobre uma gigantesca fossa comum onde, segundo o Fórum, jazem 26.500 republicanos fuzilados pelos franquistas. "Que escândalo - diz a presidente Amparo Salvador -. Nos põem obstáculos para proteger a fossa comum. Além disso, os poderes públicos oferecem numa bandeja uma basílica para honrar os mártires que, sob o franquismo, já haviam recebido uma homenagem oficial".

Ou seja, honrar os comunistas que quiseram um dia fazer da Espanha uma republiqueta soviética pode. O que não pode é fazer uma homenagem às suas vítimas. Os comunistas e anarquistas espanhóis tiveram um especial cuidado em massacrar religiosos. Estima-se que 6.832 religiosos, entre os quais 4.184 padres e 13 bispos foram assassinados na época. Freiras foram violadas e mais de 160 igrejas incendiadas e depredadas. Segundo Paul Johnson, alguns padres foram queimados vivos e outros tiveram suas orelhas decepadas. Freiras tiveram os tímpanos perfurados por rosários enfiados à força em seus ouvidos.

João Paulo II beatificou 471 mártires em seu pontificado. Não é de espantar que a Igreja queira render-lhes uma homenagem. Há dois anos, o Vaticano, em sua política de fabricar santos em série, deu carta branca à canonização de 250 sacerdotes da região, assassinados pelos comunistas. De uma tacada só, uma fornada de santos. Não bastasse isto, em outubro próximo 498 religiosos espanhóis serão beatificados em Roma. Bento XVI pretende acabar com a produção de santos no varejo. Agora eles serão vendidos por atacado. Haja bolandista para biografar tanto santo.

A Guerra Civil, dizia, está longe de ter acabado. O governo de Zapatero quer reparações morais para as vítimas do franquismo e seus descendentes, isto é, para os traidores da Espanha. Quem fala em reparação moral está pensando em reparação financeira. Certamente embalados pelo exemplo brasileiro, os socialistas espanhóis pretenderão gordas indenizações para os celerados que um dia planejaram destruir o país. Zapatero quer também erradicar os símbolos do antigo regime - o regime que construiu a rica e próspera Espanha atual - como também mudar o estatuto do Valle de los Caídos, mausoléu dedicado a Franco, situado a 50 km de Madri. Os partidos de esquerda querem transformar a basílica em museu.

Longe de mim tomar a defesa da Igreja Católica. Ocorre que todo ser que se pretenda pensante tem de um dia tomar posição ante a Guerra Civil espanhola. Eu a tomei há muito tempo. Costumo repetir - e julgo estas repetições necessárias - que com a Espanha dominada pela União Soviética, Stalin controlaria dois mares, o do Norte e o Mediterrâneo. Para derrubar Portugal bastaria um piparote e a resistência francesa seria estrangulada pelo domínio dos mares. Na esteira desta invasão, provavelmente cairia também a Inglaterra. Daí à conquista de toda a Europa Ocidental, seria questão de um ameno turismo blindado. Com Moscou imperando do estreito de Gibraltar ao de Bering, a tirania comunista teria vida bem mais longa. Europa e Ásia afundariam juntas na miséria inerente aos regimes socialistas e a praga se propagaria - como aliás se propagou, mesmo sem a vitória de Stalin - além do Atlântico. O Muro não teria caído em 89 e até hoje a Europa seria algo tão triste e pobre como foram, e ainda são, os países da finada União Soviética. Sem Franco, a Europa não seria o que é hoje, um continente rico, livre e democrático.

As chagas daquele conflito de mais de meio século atrás continuam abertas. Os herdeiros do stalinismo, derrotados em toda linha no século passado, não admitem a derrota e continuam querendo, como é típico entre os comunistas, reescrever a história. Para eles, os celerados do século, toda a glória. Para as vítimas, opróbrio e olvido.