¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quinta-feira, agosto 09, 2007
 
KOBE NUNCA MAIS



Há uma nova sofisticação no mundo da gastronomia, a carne kobe, oriunda do Japão e chamada de "ouro vermelho" por seu preço. Leio na Veja que comer um bife de Kobe pode custar até 800 dólares em Nova York e um hambúrguer feito com carne wagyu, o boi japonês chega, a 80 dólares. Que criadores de bois dos Estados Unidos e da Austrália passaram a mimetizar o modelo de criação japonês para abastecer consumidores encantados com a maciez do bife e dispostos a pagar o que se pede por ele nos restaurantes. Que o wagyu já chegou ao Brasil, que já ocupa o quarto lugar de produtor de carne kobe no mundo.

No Japão os bois recebem uma dieta especial, à base de cerveja e saquê, e massagens diárias para espalhar a gordura. Alguns criadores usam música clássica, acupuntura e tapetes térmicos. Nas primeiras referências que tive sobre o assunto, li que os bois costumam ouvir Beethoven. O que já me soou um pouco à sofisticação besta de novo rico, algo no estilo de chá com ouro em pó. A característica principal da carne kobe é o nível de marmoreamento, o grau de gordura entre as fibras que, segundo um amigo gastrônomo, pode chegar a 60%. Em São Paulo, o bife kobe pode ser encontrado no Rubaiyat, a 95 reais cada. Consta que um prato semelhante no restaurante nova-iorquino Nello's tem o preço de 750 dólares. O preço relativamente barato do bife - se comparado aos preços internacionais - se deve à criação de gado wagiu em fazendas em Minas Gerais. Os cuidados com os bois também não seriam os mesmos que os dispensados no Japão.

Num destes fins-de-semana, passei com minha filha no Rubaiyat, em busca de um cochinillo, para matar as saudades da Espanha. Até então não sabia que o bife kobe já havia chegado até nós, imaginava que seria mais uma daquelas sofisticações de milionários que é preciso viajar para conhecer. Bom, estava no cardápio. A ocasião faz o glutão. Deixei o cochinillo para uma futura incursão. Vamos ver o que é isto que isto é, como dizem os franceses. Que mais não seja, sempre gosto de degustar algo que não conheço.

A carne é de uma maciez extraordinária. Lembrou-me um pouco as açordas alentejanas, pedaços de pão num meio líquido, muito apropriadas para culturas de desdentados. Só lembrei, nada a ver carne com pão. A carne mais aproximada em matéria de maciez que já experimentei é a do cordeiro patagônico, que me foi apresentado em pleno mar, quando navegava pelo Estreito de Magalhães, rumo a Ushuaia. Ou talvez o cordero lechal espanhol, que tem apenas poucas semanas de vida e se alimenta só de leite materno. Ou ainda o cordero pascual, já mais taludo e não tão tenro, mas que nasce pastando tomilho, ou seja, já vem temperado desde as células. O kobe, devo convir, é mais macio. O problema é justo sua virtude mais propalada, o tal de marmoreamento. É extremamente gorduroso. Colesterol na veia. Não vale o que se paga.

Gaúcho, acabei conhecido mais um tipo de boi. Gastronomia também é cultura. Mas saí do Rubaiyat olhando compungido para os cochinillos expostos numa grande mesa, com a dolorosa sensação de quem traiu a mulher amada com uma aventureira qualquer. Kobe, acho que nunca mais. Pelo menos enquanto tiver ao alcance da mão cochinillos, corderos patagónicos, lechales y pascuales.