¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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terça-feira, agosto 07, 2007
 
PEQUIM REGULAMENTA
OCEANOS DE SABEDORIA




Em abril passado, recebi mail do monge Gensho, que fazia observações a uma crônica minha, afirmando que no budismo não há reencarnação. "Encarnações, como a palavra indica - dizia o monge -, implica que algo entra em um corpo, e não é isto que o budismo ensina, e sim que por um corpo se manifestar ele gera a noção de uma identidade, de um eu, e este eu se pensa algo separado, isto cessa inteiramente com a morte. Os textos budistas que eventualmente usam a palavra reencarnações, por erro semântico, transferiram ao budismo um conceito que a este não pertence, e que o destaca de todas as outras grandes religiões".

Fiquei me perguntando se não há várias linhas nas tradições budistas. Afinal, no excelente Religiões – História, tradições e fundamentos das principais crenças religiosas, antologia coordenada por Michael D. Coggan e publicada recentemente pela editora Publifolha, leio algo um tanto distinto. No capítulo dedicado ao budismo e assinado por Malcolm David Eckel, temos:

"As idéias budistas tradicionais sobre a morte baseiam-se na antiga doutrina indiana do samsara, traduzido como reencarnação, transmigração ou simplesmente renascimento, mas que significa literalmente rotação de uma vida à outra. Na época de Buda, a religião indiana passou a ver a existência como cíclico: a pessoa nasce, envelhece, morre e renasce em outro corpo, começando todo o processo de novo. O renascimento pode se dar sob a forma humana, divina, animal ou de entidade; ou também se pode renascer para ser punido no inferno".

Ora, este renascimento, a meu ver, pouco difere do que se entende por reencarnação. De qualquer forma, na ocasião, respondi ao monge Gensho que enviasse mail urgente para o Tenzin Gyatso, mais conhecido como Dalai Lama, que anda pelo mundo todo se proclamando a 14ª reencarnação do Buda. Dalai Lama, em bom português, quer dizer oceano de sabedoria.

Respondeu-me então monge Gensho:

"Trata-se de um erro de tradução, um erro no uso de uma palavra que tem significado diferente no budismo. Se vc ler os livros deste líder (apenas do budismo tibetano ressalve-se) verá que ele mesmo ao louvar-se nos sutras budistas, defende a doutrina budista de não alma (anatman), significa que não há partícula individual que sobreviva a morte. O uso da palavra reencarnação aí, tem o mesmo peso da palavra sucessor usada pelo Papa quando se diz sucessor de Pedro.

"No caso do Lama Tenzin, 14º sucessão dentro de sua ordem (Gelugpa), que iniciou por volta de 1400. Buda é muito mais antigo, morreu em 483 AC, e por definição Shaquyamuni Buda era um homem e se extinguiu, falar em reencarnação de Buda é contrariar o próprio conceito do que é um Buda. O buda da compaixão, a que os budistas tibetanos se referem, é um conceito mítico, um mito que representa a compaixão, não um personagem real.

"Não é necessário escrever a ele já que seus próprios textos explicam isto. O erro é da interpretação etnocêntrica. Que não é privilégio ocidental. Num texto antigo, budista, os cristãos são descritos como realizando um ritual antropofágico em que comem a carne e bebem o sangue de seu Deus, é lógico que vêem isto como uma superstição bárbara. Repare que ao colegiado budista brasileiro pertencem mestres budistas tibetanos e seguidores do Dalai Lama que apóiam a carta que lhe enviei com esclarecimento sobre o que realmente os budistas pensam".

Até pode ser, meu caro Gensho. Com duas ressalvas. A primeira é que, segundo o dogma da transubstanciação da carne, os cristãos de fato realizam um ritual antropofágico. Ao ingerir o pão e o vinho, o católico está ingerindo o corpo e sangue reais do Cristo, e não um símbolo do corpo e do sangue. É dogma decretado na 13ª sessão do Concílio de Trento, no dia 11 de outubro de 1551. Católico que pensar diferentemente incorre em heresia. Em segundo lugar, seria melhor que Tenzin Gyatso desautorizasse seus seguidores a falar de 14ª reencarnação do Buda, pois assim é universalmente conhecido.

Melhor ainda, seria oportuno que o oceano de sabedoria Tenzin Gyatso avisasse também o governo chinês e seu gabinete para Assuntos Religiosos. Pois a partir de 1º de setembro próximo, todo candidato à reencarnação (ou qualquer que seja a palavra adequada) de um Buda vivo tibetano deverá ter o aval do governo chinês e do supracitado gabinete. Ou seja, Pequim quer regulamentar a produção de Budas.

Os "Buda vivos" - continua a notícia - são pessoas reconhecidas como reencarnações de líderes ancestrais do budismo ou do próprio Buda. Localizados na população, em geral viram líderes de grande influência na comunidade. O objetivo da lei é aumentar o poder de Pequim sobre o Tibete e limitar a influência de Tenzin Gyatso, que vive exilado na Índia desde 1959. Em 1995, o Dalai Lama havia indicado um garoto de seis anos como reencarnação de Panchen Lama, o segundo "Buda vivo" mais importante. Após a escolha, o menino desapareceu.

Parece-me que está na hora de explicar aos chineses que se trata de um erro semântico. Pois os oceanos de sabedoria, no Tibete, estão se transformando em profissões de alto risco.