¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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domingo, agosto 05, 2007
 
SANTO NOVO PARA BREVE



Leio no Estadão que há 27 anos os devotos do padre José de Anchieta buscam o milagre que falta para canonizá-lo. Beato desde junho de 1980, quando o papa João Paulo II lhe deu as honras dos altares, não conseguiu virar santo até hoje, por falta de um milagre.

Espanhol das Ilhas Canárias, onde nasceu em 1534, de pai basco e mãe judia, José de Anchieta estudou tupi para evangelizar os índios de Pindorama. Isto é, para substituir suas crenças nativas pelas "verdades" do cristianismo. Junto com o padre Manuel da Nóbrega, foi um dos fundadores de São Paulo de Piratininga, onde os jesuítas abriram uma escola na colina que tem hoje o nome de Pátio do Colégio. É um dos desmentidos mais contundentes à afirmação de Bento XVI de que a Igreja não exerceu influência alguma nas culturas autóctones da América Latina.

Segundo o padre César Augusto dos Santos, vice-postulador da causa de canonização de Anchieta, "agora, dependemos de um milagre novo, ocorrido depois da beatificação, em 1980, para Anchieta ser declarado santo". Padre César passa dia e noite em busca de uma cura capaz de convencer o Vaticano e costuma visitar doentes em hospitais, sempre a pedido das famílias, para lhes sugerir que recorram à intercessão de Anchieta na esperança de um milagre. "Roma quer cura inexplicável, algum fato extraordinário que só vai ser considerado milagre depois de ser examinado por uma equipe de peritos, nem todos católicos".

Padre César não precisa se preocupar muito. Após lançado seu apelo em um órgão de grande divulgação, os milagres saltarão como cogumelos após a chuva. Depois de um primeiro milagre, o segundo sempre surge. Inelutavelmente. Como médico venal é o que não falta para negar a ciência e atestar milagre, em breve o Brasil terá mais um santo. Espanhol, é verdade. Mas como tem alguma ligação com o Brasil, já serve. O que importa é mais um ícone para satisfazer ao desejo popular de crendices.