¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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terça-feira, setembro 18, 2007
 
CABRAL ÀS AVESSAS



Um amigo me pergunta porque falo tanto de Paris e Madri e não falo de Lisboa. Bom, em Paris e Madri eu morei. Em Madri, um ano. Em Paris, quatro. São cidades que conheço melhor que São Paulo, onde vivo há 17 anos. Conheço melhor porque lá há mais coisas que merecem ser conhecidas. De São Paulo, não conheço quase nada. Conheço meu bairro, Higienópolis e o trajeto que vai até Jardins, Pinheiros e Vila Madalena. Mais um pouco de Perdizes. E só. Há muitos outros bairros interessantes em São Paulo. Mas ficam muito longe. Se é para ir longe, pego um táxi até Cumbica e vou mais adiante.

Conheço Lisboa muito pouco. Só posso falar de impressões. Estive lá umas seis ou sete vezes, numa delas fiquei vinte dias esperando um navio. Mas tenho imenso carinho pela cidade. Já falei que só me sinto no estrangeiro quando estou ouvindo outras línguas. Pois lá me sinto ouvindo outra língua, embora seja a mesma minha. Adoro não só o sotaque como a lógica peculiar dos lusos. Em Lisboa, chego a rir até sozinho.

Foi a primeira cidade européia em que pus os pés. Felizmente cheguei de navio, no Eugenio C, desarmado já há mais de década. Há uma diferença muito grande em chegar de avião e de barco ou trem em uma cidade. Na primeira hipótese, a cidade nos chega de chofre. De trem, ela vai chegando aos poucos, revelando sua arquitetura com aquele vagar inerente à sensualidade. De navio, ela chega muito - mas muito mesmo - lentamente.

Quando avistei aquela ponta do continente, acho que fui tomado de sensação semelhante a de Cabral ao chegar ao Brasil. O marujo tinha suas dúvidas quanto a existência ou não do Brasil e eu, apesar de todas as evidências, tinha algumas em relação à existência da Europa. Que existia, eu sabia. Mas não tinha muitas esperanças de que um dia chegaria lá. O Eugenio se aproximava da terra e eu não conseguia acreditar que dentro de algumas horas estaria pisando em solo europeu. Só acreditaria quando pusesse os pés no chão. Aos poucos, foi surgindo a ponte sobre o Tejo e o navio começou a balançar na desembocadura do rio. Viajava no mesmo barco um escritor gaúcho, o Josué Guimarães. Na entrada da foz, o Josué estava na popa, a bombordo. Eu, a estibordo. Assim, a primeira impressão que tive ao chegar a Lisboa foi o Josué subindo uns quinze metros para cima de mim e depois voltando uns quinze metros para baixo.

Meu destino não era Lisboa, mas Barcelona. Tinha seis horas para visitar a cidade. No navio, eu fizera relações com um francês que vivia há alguns anos na Bahia. Já que era francês, falávamos francês. No porto, fretamos um táxi para visitar a cidade, com mais um outro companheiro alemão, que também vivia no Brasil. Minha chegada a Lisboa foi inesquecível. Devo ter passado umas cinco horas sem parar de rir, a ponto de me doerem os músculos da barriga.

Começou com as primeiras palavras do taxista. Eu jamais havia ouvido um português falando com aquele delicioso sotaque luso. Sentei na frente e já na entrada comecei a rir. O francês respondeu no mesmo sotaque. Imaginei que ele estivesse gozando com a cara do taxista. Nada disso. Ele aprendera português em Lisboa. O taxista começou então a explicar a cidade.

- Cá em Lisboa, temos um porto com capacidade para navios de um milhão de toneladas. Claro que tais navios ainda não existem. Mas o porto nós já temos.

Precaução muito racional, sob todos os pontos de vista. Visão administrativa. Mas traduza isto para o sotaque luso e terá uma idéia de como eu rolava de rir. Eram os dias de Salazar. Passamos pela Avenida da Liberdade. "Que de liberdade só tem o nome" - explicou-nos nosso guia. Nela existe a Estufa Fria. Isso mesmo, uma estufa fria. Você pode não acreditar, mas está lá é um belíssimo jardim tropical.

Contando a história assim por escrito, talvez não tenha muita graça. Se quiser entender minha crise de hilaridade, traduza tudo para o português. Mais adiante, o taxista levou-nos a um morro onde estavam as antenas de televisão. Muito didático, explicou-nos: "Cá em Lisboa temos dois canais de televisão. Um dá uma série de programas e o segundo os repete todos".

Ele falava sério. Eu chorava e já estava vendo a hora em que ele me expulsaria do táxi. Isto foi em 71. Hoje, no Brasil, uma mesma emissora fornece um noticiário e logo depois o repete todo. Precursores, os lusos.

O passeio se aproximava do fim e o francês, intrigado, fez uma pergunta. Como é que ele conseguia entender o que eu, brasileiro, dizia, mas nem sempre entendia o que o taxista falava. O luso terminou a tarde com chave de ouro: "Nós, portugueses, falamos muito rápido. Além disso, ocorre que eu não tenho dentes". E escancarou a boca para mostrar um solitário canino.

Se sobrevivi àquele dia, é porque hilaridade não mata. Estávamos na mesma mesa, no navio. Durante o jantar, bastava olharmos um para o outro e caíamos na gargalhada. Os garçons não entendiam muito bem, pois começávamos a rir sem ter contado piada alguma.

Assim foi meu primeiro contato com Lisboa. Amanhã, conto mais.