¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quarta-feira, setembro 19, 2007
 
EM LISBOA, COMO OS LISBOETAS




Menos de um mês após aquela tarde hilariante, eu voltava a Lisboa para rir mais um pouco. Sou testemunha de algo no qual raras pessoas acreditam. Quando conto isto a portugueses, eles acham que estou fazendo piada da raça. Numa das estações do metrô, lembro que próxima ao Rossio, o trem era maior que a estação. Um cartaz alertava:

Senhor utente: se for descer na paragem tal,
dirija-se aos carros à frente do comboio


Juro que vi. Continuei rindo, para espanto dos utentes. Mas justiça faça-se aos lusos. Após a entrada na Comunidade Européia, Lisboa desenvolveu novas linhas de metrô, capazes de fazer inveja aos sistemas de Paris ou Berlim. A linha que vai até a estação Oriente, por exemplo, é dotada de estações que são obras monumentais de arquitetura.

Primeiro problema, fazer-me entender pelos garçons. Na Pastelaria Suíça, no Rossio, pedi um café.

- Com leite ou sem leite? - perguntou-me o garçom, com seu sotaque luso.
- Com leite - respondi no mesmo sotaque.

Claro que não podia dar certo. O luso trouxe-me um café, com mais uma xícara de leite.

- Mas eu pedi sem leite.
- Ora, cavalheiro, basta que o deixe de lado.

Esta lógica eu a conferi em outra viagem, no excelente restaurante Polícia, perto da Fundação Gulbenkian. Estava com um casal de jornalistas de Porto Alegre, que trabalhavam no Sempre Fixe, e pedimos um javali. Meu amigo frisou:

- Sem batatinhas.
O garçom perguntou:
- Sem batatinhas?
Meu amigo confirmou:
- Sem batatinhas.

Claro que não podia dar certo. O javali veio recheado de batatinhas.
- Mas eu não pedi sem batatinhas?
- Ora, cavalheiro, basta que as deixe de lado.

Quando voltava de Estocolmo para o Brasil, esperei em Lisboa vinte dias pelo Eugenio C. Gostei de um restaurante na Avenida da Liberdade, que hoje não mais existe, o Palladium, e jantei várias vezes por lá. Certo dia, resolvi pedir o Prato Especial.

- Não o peça, cavalheiro. O prato especial de especial nada tem.

Ok, você venceu. A lógica lusa nada tem a ver com a nossa. Nas estações de trens, não há uma seção de Achados e Perdidos. Mas sim uma de Perdidos e Achados. É lógico. Se algo foi achado e perdido, perdido está. Já perdidos e achados faz sentido. Ainda numa estação de trens, passei por outra. Não encontrava as toiletes e perguntei a um gajo:

- Onde ficam os banheiros?
A resposta foi fulminante:
- O senhor quer banhar-se?

Em Lisboa, deve-se perguntar pelo mingitório. Uma amiga me contou outra. Fora comprar algo em uma loja numa sexta-feira. Como não pretendia levar a mercadoria na hora, perguntou:

- Vocês fecham amanhã?
- Não fechamos.
- Ótimo. Então volto amanhã.
- Não volte. Nós não fechamos porque não abrimos.

É esta lógica que torna Lisboa encantadora. Outro aspecto que me tocou fundo é o estilo de beber dos lisboetas. Em Porto Alegre, participava de minha mesa de bar um recepcionista do hotel Plaza, um português de cabelos grisalhos, mas relativamente jovem, o Mário. De repente, o Mário sumiu. Constava que voltara à terrinha. Em algum ano dos 70, eu vagava pelo Rossio, tentando descobrir onde a gente boa se reunia. Velho habitué de botecos, tenho um faro especial para isso. Ao lado do Nicola, encontrei um café mais aberto, o Pic-Nic. Só pode ser aqui, disse a meus botões.

Era. Mal levei a bica aos lábios, o Mário me abordou: "como vai?" Antes que me esqueça, bica é o nosso café expresso, em alusão à bica da máquina, por oposição ao café de saco, coado. Nos abraçamos longamente e Mário convidou-me para fazer a noite lisboeta.

Começamos por uma ginja. São pequenos cubículos com um balcão minúsculo, onde se serve basicamente ginjinha, um licor feito da cereja de mesmo nome. É bebida bastante doce, não aconselhável para começar um giro pela noite. Vem num cálice pequeno. Pode ser tomada "com elas" ou "sem elas". Com elas é com as ginjinhas, é claro. Sem, é sem elas. Um bebedor experiente já nem pede ginjinha. Vai logo dizendo com ou sem. Imaginei que conversaríamos algum tempo enquanto bebíamos. Olhei para a rua. Quando voltei o olhar ao bar, meu parceiro já havia empinado a sua. Em Lisboa, como os lisboetas. Empinei também a minha.

É quando me lembro daquele palíndromo latino: in girum imus nocte et consumimur igni. En círculos andamos na noite e somos consumimos pelo fogo. Não sei o que os romanos da época entendiam por fogo, mais foi o que aconteceu comigo, na acepção hodierna e brasileira de fogo. Os botequinhos foram se sucedendo, os licores também, o pirata, o perna-de-pau, entremeados de alguma bagaceira, uma grapa portuguesa de alto teor alcóolico. Tudo bebido de um gole só. Sou bom bebedor, mas já começava a entregar os pontos. Foi quando o Mário convidou-me:

- Agora vamos sentar e beber um pouco.

Em Lisboa, como os lisboetas. Vamos lá!