¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quinta-feira, setembro 13, 2007
 
ESCRITOR TEM FÓRMULA
PARA PRODUZIR MOZARTS




A Bienal Internacional do Livro, do Rio de Janeiro, tem-se caracterizado cada vez mais pela participação de medíocres escritores estrangeiros. Como são estrangeiros, os medíocres logo ganham espaço nos jornais. Falo de David Toscana, anunciado pelo Estadão como "a voz rebelde do México". E por que rebelde? Porque xinga os Estados Unidos. "O muro que agora levantam os gringos causa indignação", diz Toscana, denunciando assim sua filiação ideológica. O muro entre México e Estados Unidos passou a ser o argumento empunhado pelas esquerdas, que não tinham como justificar o horror do Muro de Berlim, muitos menos as fronteiras fechadas da finada União Soviética. "Ah, mas os EUA também construíram um muro", costumava-se dizer. Toscana viveu em Berlim. Seu cacoete deve vir de lá. As esquerdas adoravam viver na ilha paradisíaca da Berlim ocidental e capitalista, enquanto defendiam o socialismo. Com a unificação da Alemanha, viver no paraíso se tornou mais caro.

O argumento, além de obsoleto, não tem sentido. Os países comunistas proibiam a seus cidadãos o sagrado direito de ir e vir, sair, viajar. Porque quem saía não voltava mais. Quando adolescente, sem maiores informações sobre o mundo soviético, este era meu argumento contra os comunistas: mas se os regimes comunistas são paradisíacos, por que deles não se pode sair? Quando se sai do paraíso, a gente fica morrendo de saudade e pressa de voltar. Não era o caso. Ninguém voltava ao paraíso. Preferiam o inferno capitalista. Nenhum comunista soube responder-me a esta questão óbvia.

O muro americano proíbe a entrada no paraíso. Paraíso não para mim, bem entendido, mas para os milhões de migrantes que vêem nos EUA a realização de seus sonhos de bem-estar, consumo e realização pessoal. Da mesma forma que milhares de pessoas arriscam a vida no Mediterrâneo ou Adriático para chegar à Espanha ou Itália, outros tantos milhares arriscam-se a morrer no deserto para chegar à utopia. Uma coisa é muro que proíbe de sair: existe para tolher a liberdade de sair. Outra coisa é um muro que proíbe entrar. Não existe direito de entrar. Ou as nações estabelecem regras para aceitar imigrantes, ou boa parte da África se muda para a Europa e boa parte da América Latina se muda para os Estados Unidos. Não é proibido entrar na Europa ou Estados Unidos. Mas os candidatos a lá entrar têm de se submeter a certas exigências.

Mas essa não é a bobagem maior de Toscana. Sua indigência mental se revela quando afirma: "Cada vez mais diminui o número de mentes brilhantes porque há menos diversidade; os sistemas pelo qual nos educamos tendem à uniformidade, a matar a individualidade. Assim, é impossível ter outro Mozart".

Quer então o brilhante escritor dizer que basta haver diversidade e sistemas educativos que não tendam à uniformidade para que os Mozarts brotem da terra como cogumelos após a chuva? Que se houvesse diversidade e sistemas educativos ideais em Uganda ou no Paraguai, ou mesmo no México ou Brasil, no dia seguinte estaríamos produzindo Mozarts em série? Que se o sistema educacional fosse bom as Flautas Mágicas e os Dons Giovannis saltariam como pipocas numa panela? Confesso nada ter lido de Toscana. Nem vou ler. Quem afirma tamanho despautério não pode escrever nada inteligente. São afirmações que contaminam biografia e obra de um escritor. Nem mesmo a Áustria de Mozart conseguiu produzir outro Mozart. E o escritorzinho lá dos cafundós do México pretende ter a fórmula para produzir Mozarts em massa.

Enfim, o que me espanta é ver um jornalista ouvir impassível tal disparate, sem ao menos denunciar sua incongruência. Pior ainda, o situa como "filho literário de Cervantes". O manco de Lepanto deve estar se revirando em sua tumba. Todo escritor tem o sagrado direito de proferir bobagens. Não é crime. Mas jornalistas não precisam endossar bobagens.