¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sábado, setembro 08, 2007
 
FORA DA LEITURA NÃO HÁ SALVAÇÃO




"As melhores coisas da vida me aconteceram lendo", diz Mario Vargas Llosa, ao receber o título de doutor Honoris Causa pela Universidad de la Rioja, Espanha. "A leitura é o que te permite fazer-te dono de uma linguagem. Uma pessoa que não lê tem necessariamente um vocabulário pobre e se expressa mal. E isso não significa somente que seu conhecimento da linguagem é limitado, mas também que pensa mal, porque se pensa na medida em que se fala e vice-versa". À primeira vista, parece que Llosa quer se referir a nosso presidente. Mas não era o caso.

Assino embaixo. Em meus dias de magistério, uma aluna me perguntava perplexa: "quer dizer que a leitura pode transformar uma pessoa?" Ora, muitos fatos na vida transformam uma pessoa, entre outros a guerra ou a perspectiva de morte iminente - mas nada transforma tanto quanto a leitura. Foi lendo que me libertei da prisão intelectual do cristianismo, foi lendo que escapei à tentação marxista. E lendo foi que descobri que a vida não precisava ser como era, mas podia ser bem outra. Comecei minha vida em cidade onde as opções de leitura eram escassas. Mas vivia perto do Uruguai. Não sei como, mas nos chegavam títulos em espanhol. Lembro que, lá em minha adolescência, encomendei por uma freira, com a qual convivia em boa paz, um livrinho de José Ingenieros, pensador argentino, intitulado Hacia una Moral sin Dogmas. Irmã Helena me trouxe o livro, mas não ousava entregá-lo. "Esse livro me queima nas mãos. Não posso te dar".

Ora, irmã - considerei - agora mesmo é que quero esse livro. Se você não me entregar, de alguma forma vou encontrá-lo. Melhor então me entregar e continuamos mantendo boas relações. A irmã foi sensata e acabou me entregando o livro. Não lembro muito hoje do que tratava. Mas foi fundamental para minha libertação do cristianismo. Depois foram chegando outras leituras. Voltaire, Montesquieu, Diderot, Pascal, Bertrand Russel, Dostoievski, Nietzsche. A crença estúpida que me fora enfiada a machado na cabeça se fez em pedaços. Se sou o que hoje sou, devo tudo à leitura.

"Nada enriquece tanto os sentidos, a sensibilidade, os desejos humanos, como a leitura" -– continua Vargas Llosa -. "Estou completamente convencido de que uma pessoa que lê, e que lê bem, goza muito melhor a vida, embora também seja uma pessoa que tem mais problemas frente ao mundo. Há uma problemática que se desenvolve com a curiosidade, com as incertezas que os bons livros fazem nascer em ti, indubitavelmente. O que não exclui que seja uma maneira de viver melhor. (...) Somos muito mais livres quanto mais e melhor lemos".

Não por acaso, a primeira coisa que os ditadores proíbem são as leituras. A primeira providência que a Igreja tomou, para preservar seu poder, foi proibir leituras. Só que proibir leituras é o mesmo que incitar a ler. O Index Prohibitorum do Vaticano sempre foi um catálogo de excelentes leituras. Tanto o regime nazista como os regimes comunistas se caracterizaram pela proibição e queima de livros. Não há tiranete que não saiba que a leitura liberta.

"Por isso a leitura é imprescindível se se quer ter uma sociedade democrática, com cidadãos ativos, que participam, que intervêm não só no debate público, mas na marcha do que se chama civilização" - continua Llosa -. "E é a razão pela qual a leitura não é um mero prazer ou entretenimento, mas o instrumento básico na formação de um cidadão livre, moderno, participante. A literatura é uma expressão de tudo isso".

Romancista, quando fala de literatura, Llosa quer dizer ficção. Aqui começo a discordar de sua louvação da leitura. Costumamos esquecer que ficção, por definição, é mentira. Sei, a literatura está repleta destas mentiras salutares, que nos levam a pensar em outros mundos, outra maneiras de ser e viver. Mas continua sendo mentira. Devo confessar que fui formado por essas grandes mentiras, a começar pelo Quixote. O personagem de Cervantes é inverossímil, mas nos toca no âmago por seus sonhos. As grandes ficções são sempre grandes mentiras, mas têm um fundo inevitável de verdade. Quando leio o Martín Fierro, sei que aquele gaúcho é fruto da mente de Hernández. Nem por isso ele deixa de me comover. Este é o milagre da poesia, e talvez seja sua função primeira. E certamente foi por isto que Platão expulsou os poetas de sua República.

Tudo isto para dizer que, alguns clássicos à parte, há muito abandonei a leitura de ficção. Isso após ter traduzido, e com entusiasmo, uma boa dezena de livros de ficção. Gostei de ler as ficções de Llosa, particularmente Pantaleão e as Visitadoras, um dos altos momentos de humor da narrativa latino-americana. Mas, se quero romance, hoje leio jornais. Cada jornal me traz, dia a dia, enredos fabulosos. Desde a queda do Muro até o atentado do 11 de Setembro, coisas que jamais um ficcionista ousou um dia sonhar. Se quisermos "literatura nacional", aí estão o mensalão, a formação de quadrilha do PT, o caos aéreo, a affaire Renan Calheiros, novelas sempre cheias de suspense, cujo desenlace é sempre uma incógnita.

"O romance é o conto de fadas de quem não tem imaginação" - escreveu Pessoa -. "A literatura, como toda a arte, é uma confissão de que a vida não basta. Talhar a obra literária sobre as próprias formas do que não basta é ser impotente para substituir a vida". A história humana é bem mais surpreendente que a imaginação dos escritores. É por isso que, nos últimos vinte ou talvez mais anos, não consigo mais ler contos ou romances. Mas mergulho com gosto nos relatos históricos. Estou lendo atualmente L’Empire gréco-romaine, de Paul Veyne, com um entusiasmo que hoje ficção alguma me produz. Porque Veyne me conduz a um mundo distante no tempo e no espaço, a um mundo de outras crenças que não as do mundo contemporâneo, e este tipo de viagem é para mim tão fascinante quanto ir a Paris ou Roma.

Em meu descaso pela ficção, abro uma exceção, a teologia. Há quem imagine que, ao ler tratados teológicos, estou tentando resgatar uma fé perdida. Nada disso. Teologia é gênero que me diverte imensamente. Pois tem pretensões de convencimento. Ninguém empunharia o Quixote para arrastar alguém a esta ou àquela crença. Mas as grandes ficções teológicas querem dominar as mentes, e por isto são significativas.

Embora simpatize com as afirmações de Llosa, eu não afirmaria que as melhores coisas da vida me aconteceram lendo. As melhores mesmo, diria, me aconteceram vivendo. Mas leitura é fundamental. Fora da leitura não há salvação.

A propósito, a irmã Helena acabou largando o hábito.