¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

Powered by Blogger

 Subscribe in a reader

segunda-feira, setembro 10, 2007
 
HUYHNHNMS E YAHOOS



Um casal de mexicanos que se conheceu por meio da internet batizou seu filho com o nome de Yahoo, apesar dos funcionários do cartório terem lhes advertido sobre os danos psicológicos que poderiam ocasionar à criança. É o que leio em um despacho da Efe. O caso, revelado pelo jornal La Crónica, da cidade de Mexicali, México, ocorreu em março de 2005.

É claro que o casal mexicano não tinha a mínima idéia do sentido absolutamente pejorativo da palavra. Muito menos os funcionários do cartório. Quando surgiu na Internet o buscador Yahoo, me perguntei como poderia alguém ser tão inculto para assim batizar um site. Segundo o jornal, o termo Yahoo significa animal, e foi inventado por Jonathan Swift, no livro As Viagens de Gulliver. No mesmo despacho, leio que segundo os fundadores do site de buscas Yahoo, Jerry Yang e David Filo, este nome foi escolhido porque eles mesmos se consideravam "animais da informática".

Ou seja, tanto os redatores do La Crónica como Yang ou Filo jamais leram a obra de Swift, a quem devemos a palavra. Os yahoos não são apenas animais, mas animais vis e repelentes. Surgem quando Gulliver chega ao país dos Huyhnhnms, ou dos Cavalos, seres nobres que jamais mentiam e portanto sequer possuíam em sua língua vocábulos para exprimir a verdade ou a mentira. Quando precisavam referir-se ao que chamamos de mentira, diziam "a coisa que não era".

"Ora - diz um huyhnhnm - , quando o senhor faz o que se chama mentir, dá-me a compreender o que não se pensa: em vez de me dizer o que é, não fala, só abre a boca para articular sons vãos, não me tira da ignorância, aumenta-a".

Os yahoos são seres em tudo semelhantes aos humanos e capazes das maiores vilezas, entre elas a mentira. Gulliver, ao chegar no país dos Huyhnhnms, é tido como um yahoo e os cavalos não conseguiam compreender que houvesse terras de além-mar e que um vil rebanho de yahoos pudesse fazer flutuar sobre esse elemento uma grande construção de madeira e conduzi-la à sua vontade. "Ninguém, salvo um huyhnhnm, poderia fazer semelhante coisa. Confiar o governo de uma construção dessas a um yahoo, é obra de insensatos".

Escreve Swift, pela voz de Gulliver:

"Esta palavra huyhnhnm, na sua língua, significava cavalo, e quer dizer, conforme a sua etimologia, a perfeição da natureza. Respondi a meu amo que me faltavam as expressões, mas, dentro de algum tempo, ficaria em estado de lhe referir coisas, que, decerto, o surpreenderiam. Exortou a senhora égua sua mulher, os senhores seus filhos, o potro e a potranca, e todos os seus criados, a concorrer com zelo a aperfeiçoarem-me na língua, e ele próprio, todos os dias, consagrava para esse fim duas a três horas.

"Acrescentei que, se algum dia o céu permitisse que voltasse ao meu país e publicasse a relação das minhas viagens, e em especial a minha permanência entre os huyhnhnms, toda a gente acreditaria que eu diria uma coisa que não era, e que seria uma história fabulosa e impertinente que eu tinha inventado; em suma, apesar de todo o respeito que ele me merecia, e toda a sua honrada família, e todos os seus amigos, ousava afirmar-lhe que no meu país ninguém acreditaria que um huyhnhnm fosse um animal racional e que um Yahu fosse um animal irracional".

Um huyhnhnm é colocado ao lado de um yahoo, para que Gulliver possa fazer a comparação:

“Não posso descrever a minha surpresa e o meu horror, quando, tendo examinado de perto esse animal, notei nele todas as feições e toda a configuração de um homem, com a diferença de que tinha uma cara larga e chata, o nariz esborrachado, os lábios grossos e a boca muito grande; isto, porém, é vulgar a todas as nações selvagens, porque as mães parem os filhos com o rosto voltado para o chão, levam-nos às costas e eles batem-lhes com o nariz nas espáduas. Este yahoo tinha as patas dianteiras parecidas com as minhas mãos, embora fossem munidas de unhas muito grandes e a pele fosse trigueira, rude e coberta de pêlo. As pernas também se pareciam com as minhas, com algumas diferenças. No entanto, as minhas meias e os meus sapatos tinham feito acreditar aos senhores cavalos que a diferença era muito maior. Com respeito ao resto do corpo, era de fato a mesma coisa, exceto com relação à cor e ao pêlo".

Quando o capitão Gulliver conta a seus anfitriões que os yahoos eram, em seu país, os animais senhores e dominadores, seu interlocutor quer saber se lá haviam huyhnhnms e qual era o seu estado e emprego.

"Respondi-lhe que tínhamos grande quantidade; que, no verão, pastavam nas campinas e que, durante o inverno, ficavam em suas casas, onde tinham yahoos para os servir, para lhes pentear a crina, para lhes escovar e esfregar a pele, para lhes lavar os pés, para lhes dar de comer.

"- Compreendo, - retorquiu ele - isto é, que, embora os yahoos se gabem de possuir algum raciocínio, os huyhnhnms são sempre os amos, como aqui. Prouvesse aos céus apenas que os nossos yahoos fossem tão submissos e tão bons criados como os do seu país!"

Gulliver esclarece que os huyhnhnms não possuem na sua língua termo para exprimir o que é mau, e servem-se de metáforas tiradas das disformidades e das más qualidades dos yahoos. Quando queriam exprimir a falta de jeito de um criado, a culpa de algum dos filhos, uma topada, um tempo chuvoso e outras coisas semelhantes, dizem o nome da coisa a que se querem referir, acrescentando-lhe apenas o epíteto de yahoo.

”Por exemplo: para manifestar estas coisas, dirão: hhhm-yahu; whnaholm-yahu; inbhmnawhhma-yahu; e para significar uma casa mal construída dirão: unholmh-umrohlnw-yahu".

A história dos yahoos é longa e remeto o leitor às Viagens, título obrigatório em qualquer seleção de dez livros que você queira levar para uma ilha deserta. Só para concluir, a ojeriza que Lemuel Gulliver, ao voltar à sua ilha natal, desenvolveu em relação aos yahoos, isto é, a nós, seres humanos:

"Minha mulher e toda a família, ao tornar a ver-me, testemunharam a sua surpresa e a sua alegria; como me haviam julgado morto, entregaram-se a transportes que não posso exprimir. Beijei e abracei todos friamente, em virtude da idéia do yahoo, que não me saíra ainda do espírito, e por esse motivo não quis a princípio dormir com minha mulher. O primeiro dinheiro que tive empreguei-o em comprar dois cavalos novos, para os quais mandei construir magnífica estrebaria, que entreguei aos cuidados de um palafreneiro de primeira ordem, a quem fiz meu confidente e favorito. O cheiro de estrebaria encantava-me e passava aí quatro horas por dia a conversar com os meus cavalos, o que me fazia recordar os virtuosos huyhnhnms".

Que Gulliver, após a viagem ao país dos Huyhnhnms, prefira o convívio com os cavalos ao convívio com sua família, entende-se. Que um casal de yahoos mexicanos batize o filho como Yahoo, também é inteligível. Mais difícil é entender a opção de Jerry Yang e David Filo. Fica claro que jamais leram Swift e conhecem sua obra de ouvir falar. Vai ver que também são yahoos e ainda não sabem disto.