¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quinta-feira, setembro 06, 2007
 
A INDÚSTRIA DA BIPOLARIDADE




Um dos sonhos de quem viaja para longe é o teletransporte. Aquela fórmula mágica que vemos em filmes de ficção científica, tipo Viagem às Estrelas. O viajante de desmaterializa num lugar e se rematerializa no outro. Maravilha! A meu modo, encontrei meu teletransporte. É o Dormonid. Quando tenho de atravessar um oceano, tomo um pilulinha, me apago e acordo em Paris. Tem seus riscos. Ano passado, indo de ônibus de Dom Pedrito para Porto Alegre, tomei um e acordei na garagem da empresa. Pode acontecer. Mas não era disto que pretendia falar.

De alguns anos para cá, uma palavra foi entrando aos poucos em minha correspondência: transtorno bipolar. Ora, tenho seis décadas de existência, e durante pelo menos cinco destas décadas jamais havia ouvido falar disso. Terá a sociedade contemporânea produzido uma nova doença? Ou será fabricação da indústria farmacêutica? Até pouco tempo, um nível de glicemia entre 70 e 120 era permissível. Acima dos 120 considerava-se que o paciente era diabético. De repente, lá nos States alguém decretou que o nível máximo de glicemia é 110. Automaticamente, aumentou o número de diabéticos... e o consumo de medicamentos para diabéticos. United States dixit. Dia seguinte, o limite para diabetes no Brasil era 110. Há médicos que querem 90. Alguns raros, menos ianquizados, aceitam 120. Mais um pouco, e todo mundo é diabético. Para alegria da indústria farmacêutica.

Não, o transtorno bipolar não seria doença nova. Seria a antiga psicose maníaco-depressiva. Até aí, inteligível. Uma mudança na nomenclatura. Fosse apenas isso, tudo bem. Ocorre que comecei a receber mails perturbados e perturbadores, de pessoas com boa renda e posses, que aparentemente nada tinham para queixar-se da vida, mas alegavam ter sido acometidas pelo tal de transtorno bipolar. A palavrinha começou a chegar-me a partir de correspondência vinda dos States. E passou a invadir o vocabulário nacional.

Não gosto de citar cifras, mas reportagem publicada ontem na Folha de São Paulo mostra que o número de crianças e adolescentes diagnosticados com transtorno bipolar aumentou quase 40 vezes nos EUA de 1994 a 2003. Entre 1994 e 1995, eram 25 em cada 100 mil os pacientes de até 19 anos que, ao se consultarem com um psiquiatra, recebiam esse diagnóstico. O número pulou para 1.003 a cada 100 mil entre 2002 e 2003, de acordo com o estudo. No caso dos maiores de 20 anos, a elevação foi muito menor no mesmo período: 46%, passando de 905 diagnósticos para 1.679 em cada 100 mil pessoas que procuraram um médico.

Se em 94 eram 25 em cada cem mil e em 2002 são 1003, ou a saúde mental dos americanos está em baixa acelerada ou, o que é mais provável, a indústria farmacêutica está alargando a faixa de doença. Se o transtorno bipolar aumentou nos Estados Unidos, é claro que aumentaria no Brasil. O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil. Segundo a reportagem da Folha, especialistas afirmam que houve um aumento no número de diagnósticos de transtorno bipolar entre crianças e adolescentes no Brasil nos últimos anos. Hoje, 135 crianças com bipolaridade são atendidas no Hospital de Clínicas de São Paulo. Em 1995, eram 22. Segundo Lee Fui, médica-supervisora do Serviço de Psiquiatria da Infância e da Adolescência da Faculdade de Medicina da USP, "nossa quantidade de diagnósticos aumentou umas dez vezes em relação àquela época". Mas Lee Fui deixa escapar um certo ceticismo: "há quem ache agora que tudo é transtorno bipolar".

Nos Estados Unidos, estudos apontam que a 90,6% dos jovens diagnosticados como bipolares foi prescrito algum tipo de medicação, como estabilizadores de humor e antidepressivos, o que, para muitos especialistas, sinaliza um problema grave: as crianças acabam recebendo remédios errados ou desnecessários.

Medicamentos como Prozac, Verotina, Eufor, Tryptanol, Zyban, Cipramil, Cymbalta, Lexapro se tornaram tão normais como ter um psicanalista. Há uma espécie de ser humano que não consegue viver sem antidepressivos ou, na falta destes, um psicanalista. Prozac é o mais prestigioso. Você perdeu uma pessoa que amava? Tome Prozac. Está deprimido porque não passou no vestibular? Prozac. Sentiu-se traído pelo parceiro ou parceira? Prozac e a vida volta à sua normalidade. O homem contemporâneo parece não ser mais capaz de enfrentar de cara os problemas que a vida apresenta e recorre à calma química. Ou aos vigaristas discípulos de Freud. De minha parte, só não dispenso o Dormonid. Para encurtar travessias de oceanos, e nada mais que isso.

A indústria farmacêutica, que há muito já conquistou o mercado adulto, está investindo agora na infância. As crianças estão engolindo, goela abaixo, forçadas por pais e médicos, a indústria da bipolaridade.