¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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terça-feira, setembro 04, 2007
 
A INDÚSTRIA TEXTIL


(Um de meus interlocutores quer saber se algum dia estive nas Jornadas Nacionais de Literatura, em Passo Fundo, e se ainda as acompanho. Atualmente, não tenho acompanhado. Fui convidado para a 7ª Jornada, em setembro de 1997. Abaixo, minha comunicação. Os leitores intuirão porque nunca mais fui convidado)



Homens deste final de século, costumamos olhar para nomes como Cervantes, Swift, Voltaire com uma admiração desmesurada. Considerados as expressões máximas da literatura satírica universal, a posteridade conferiu-lhes - por unanimidade - a condição de gênios. O mesmo já não diriam seus contemporâneos.

Cervantes, por exemplo, escreveu o Quixote na prisão. Sua prisão nada teve a ver com literatura. Mas na frase inicial de seu grande poema, notamos um certo ressentimento: "En un lugar de la Mancha, de cuyo nombre no quiero acordarme, no ha mucho tiempo que vivía un hidalgo de los de lanza en astillero, adarga antigua, rocín flaco y galgo corredor". Hoje sabemos que este lugar é Argamasilla de Alba. Em função de certas cobranças de impostos em Argamasilla, Cervantes foi preso. Na solidão do cárcere, concebeu as andanças do Quixote. Antes disso, fora prisioneiro durante cinco anos e meio em Argel e perdera a mão esquerda na batalha de Lepanto.

No prólogo a Novelas Ejemplares, Cervantes faz seu auto-retrato. Nesta confissão de um homem machucado pela vida, lamenta seus dentes, "ni menudos ni crecidos, porque no tiene sino seis y son mal acondicionados y peor puestos, porque no tienen correspondencia los unos con los otros". Também glorifica a mão perdida em Lepanto, "herida que, aunque parece fea, él la tiene por hermosa, por haberla cobrado en la más memorable y alta ocasión que vieron los pasados siglos ni esperan ver los venideros". Ali está o homem, mutilado pela vida, mas inteiro e orgulhoso de seus feitos. Mais tarde, ciente da grandeza de sua obra, Cervantes dirá de Cervantes:

"tú, que en la naval dura palestra
perdiste el movimiento de la mano
izquierda, para gloria de la diestra!"

Swift, que curiosamente é mais conhecido no Brasil como um autor de histórinhas infantis, não foi exatamente um homem benquisto pelos seus contemporâneos. Deão de Saint Patrick, em Dublin, Irlanda, escreveu anonimamente a maior parte de suas obras. Diz a lenda que sua obra maior, As Viagens de Gulliver, teria sido jogada de uma carruagem pela janela adentro do editor. Mas seu estilo era inconfundível. Para que se tenha uma idéia do humor do deão e de seu conflito com a própria época, bastaria citar esta reflexão sua: "Quando um verdadeiro gênio aparece no mundo, podeis conhecê-lo por este sinal: todos os cretinos se aliam contra ele".

As Viagens de Gulliver é certamente a mais virulenta denúncia do gênero humano jamais feita por um escritor. Sua atualidade é espantosa: nos anos 70, publiquei em Porto Alegre uma sátira de Swift aos advogados, que encontramos na viagem ao País dos Houynhnhms. Minha crônica, na qual eu citava devidamente o autor, foi republicada sem minha permissão em um jornal de Peruíbe, São Paulo, em 1983. Algum tempo depois, os editores do jornal andavam à minha procura, me implorando que escrevesse uma carta ao juiz local, dizendo ser a crônica de minha autoria, sem nenhuma alusão a personagens vivos ou mortos de Peruíbe. Ocorreu que três advogados de Peruíbe se sentiram difamados com o texto e julgaram que Janer Cristaldo fosse um pseudônimo do editor da Tribuna de Peruíbe. Um juiz, demonstrando nada dever em matéria de cultura aos três advogados, aceitou a denúncia e processou o diretor do jornal. Que também jamais havia ouvido falar de Swift. Imagino que, naqueles dias, o deão deve ter dado boas gargalhadas em sua tumba na catedral de Saint Patrick.

Swift escreveu As Viagens em 1726. Dois séculos e meio mais tarde, foi processado por calúnia em Peruíbe. Entrincheirado em sua catedral, isolado do mundo e distante até mesmo de suas duas amadas, Stella e Vanessa, o deão passou seus dez últimos anos mergulhado na loucura. Certa vez, ao ver uma árvore cuja copa fenecia, disse: "morrerei como aquela árvore". Assim feneceu.

Voltaire, outro expoente maior da literatura satírica, esteve por duas vezes preso na Bastilha e teve de desterrar-se na Inglaterra, onde aliás conheceu Swift. Refugiado em Ferney, o "monastério filosófico do século", passou os últimos anos de sua vida defendendo os direitos da razão, sempre polemizando contra "l’infâme", ou seja, a Igreja Católica, segundo ele a fonte dos piores abusos e superstições.

Voltaire morreu em 1778. O arcebispo de Paris e o clérigo de Saint Sulpice lhe negaram sepultura. Quase dois séculos mais tarde, tínhamos de ler A Revolta dos Anjos às escondidas, pois sua leitura era proibida aqui no Rio Grande do Sul, no ginásio de Dom Pedrito, dirigido por padres oblatos europeus.

Enfim, me atenho a estes três rápidos exemplos para demonstrar que a grande literatura satírica sempre foi de denúncia, sempre foi incômoda, e sempre expôs seus cultores à execração de seus contemporâneos. Foram homens que lutaram contra a própria época. É bom lembrar que o Quixote foi escrito sob a Inquisição.

Se Espanha, Inglaterra e França, berços de artistas, santos e hereges, produziram estes livres pensadores, o mesmo já não ocorre nesta nossa pátria nascida sob o signo do cartorialismo. Machado de Assis, tido como o humorista por excelência das letras tupiniquins, parece não ter entendido a mensagem desses mestres. Ao tecer sua carreira, seu primeiro passo foi criar um cartório particular, a Academia Brasileira de Letras, para que suas obras permanecessem esclerosadas pela eternidade. Antes que os pósteros o elegessem como clássico, Machado fundou seu clubinho e se auto-intitulou imortal.


A GRANDE PROSTITUTA


Até mesmo um crítico feroz da Academia, como Jorge Amado - que chegou a apedrejá-la em seus dias de juventude - acabou por vestir o fardão. O que não é de surpreender: Amado vestiu não só o fardão, mas todas as camisetas do poder, antecipando a imperiosa compulsão dos escritores contemporâneos pelas mordomias estatais. Quando jovem, aproveitando a ascensão de Hitler, foi colaborador do jornal nazista Meio Dia, e disto nos dá testemunho Oswald de Andrade, em entrevista republicada em Os Dentes do Dragão:

"Diante de tantos erros e mistificações, retirei a minha inscrição do partido. Numa reunião da comissão de escritores, diante de quinze pessoas do PC, apelei para que o sr. Jorge Amado se retirasse de São Paulo e denunciei-o como espião barato do nazismo, antigo redator qualificado do Meio Dia. Contei então, sem que Jorge ousasse defender-se, pois tudo é rigorosamente verdadeiro, que em 1940 Jorge convidou-me no Rio para almoçar na Brahma com um alemão altamente situado na embaixada e na agência Transocean, para que esse alemão me oferecesse escrever um livro em defesa da Alemanha. Jorge, depois me informou que esse livro iria render-me 30 contos. Recusei, e Jorge ficou surpreendido, pois aceitara várias encomendas do mesmo alemão".


Já maduro, e intuindo que Hitler não tinha futuro, Amado foi militante stalinista tão devotado a ponto de receber o Prêmio Stalin da Paz. Reproduzimos apenas um trecho de seu longo hagiológio ao Paizinho dos Povos, extraído de O Mundo da Paz:

"Vós sabeis, amigos, o ódio que eles têm - os homens de dinheiro, os donos da vida, os opressores dos povos, os exploradores do trabalho humano - a Stalin. Esse nome os faz tremer, esse nome os inquieta, enche de fantasmas suas noites, impede-lhes o sono e transforma seus sonhos em pesadelos. Sobre esse nome as mais vis calúnias, as infâmias maiores, as mais sórdidas mentiras. ‘O Tzar Vermelho’, leio na manchete de um jornal. E sorrio porque penso que, no Kremlin, ele trabalha incansavelmente para seu povo soviético e para todos nós, paras toda a humanidade, pela felicidade de todos os povos. Mestre, guia e pai, o maior cientista do mundo de hoje, o maior estadista, o maior general, aquilo que de melhor a humanidade produziu. Sim, eles caluniam, insultam e rangem os dentes. Mas até Stalin se eleva o amor de milhões, de dezenas e centenas de milhões de seres humanos. Não há muito ele completou 70 anos. Foi uma festa mundial, seu nome foi saudado na China e no Líbano, na Rumânia e no Equador, em Nicarágua e na África do Sul. Para o rumo do leste se voltaram nesse dia de dezembro os olhos e as esperanças de centenas de milhões de homens. E os operários brasileiros escreveram sobre a montanha o seu nome luminoso".

Não bastasse militar em jornal nazista e louvar o maior assassino do século, depois de velho Amado assumiu o papel de roteirista predileto de Roberto Marinho ao vender suas noveletas "ao gosto popular" para a Rede Globo e foi ainda o primeiro escritor de renome a saudar Fernando Collor de Mello por sua eleição. Não bastasse toda esta trajetória sinuosa - mas de rumo sempre certo, o poder - candidatou-se a uma cadeira na Casa de Machado, a mesma casa que insultara quando nela não estava. Claro que lhe foi conferida, por demais cúmplices, a glória da "imortalidade".

Escorados intelectualmente no exemplo de Machado, o assim chamado "pai da literatura brasileira", grande parte dos escritores tupiniquins seguiram sua estratégia: escrever para agradar o grande público e, de preferência, o poder. Temos hoje, em plena vigência de um Estado democrático, três excrescências que poluem o mundo literário.

A primeira é o livro estatal.

A segunda são as mordomias recebidas por escritores amigos do rei.

E a terceira é a neocensura stalinista exercida pelos amigos do rei a quem quer que tente criticá-los.

Estas três excrescências são o subproduto do que chamo de indústria textil. Textil assim mesmo, sem acento circunflexo. Nada a ver com a indústria têxtil, esta honesta e necessária.


O LIVRO ESTATAL


O suporte da indústria do livro, hoje, é a universidade. Se um dia o livro foi um instrumento sem o qual a universidade não podia existir, hoje a universidade é um instrumento sem o qual a indústria do livro perde seu vigor. O que era fim, a aquisição de saber através da universidade, se tornou meio para sustentação de um comércio. E o que era meio, o livro como instrumento de deleite espiritual ou comunicação do saber, tornou-se fim, uma mercadoria como qualquer outra, para alegria de editores e massagens no ego de escritores com boas relações junto ao MEC e crítica acadêmica. Quanto à boa literatura, aquela que nos foi legada por poetas como Cervantes, Hernández ou Pessoa, criadores como Swift ou Nietzsche, esta deve andar escondida nalguma tasca qualquer. Se é que já não se suicidou de nojo do século. Leiamos esta manchete da Folha de São Paulo:

MACHADO É ELEITO AUTOR IMPRESCINDÍVEL

Comissão vai formar lista de 300 títulos nacionais: livro pouco conhecido do autor modernista foi indicado

Na reportagem que anunciou a lista dos trezentos títulos, os editores esfregaram as mãos de ganância. O aumento das verbas do MEC com obras não-didáticas, segundo a Folha de São Paulo, era uma antiga reivindicação das editoras e a decisão do governo "deve chacoalhar o mercado". "Vamos comprar milhares de volumes de cada obra", disse na ocasião José Antônio Carletti, presidente do Fundo Nacional para o Desenvolvimento da Educação. Cada autor selecionado tem uma edição mínima de 20 mil exemplares, tiragem de sonho mesmo em países de Primeiro Mundo. Multiplique-se esta cota mínima de 20 mil por trezentos, e já se tem uma pálida idéia do montante da mutreta: seis milhões de exemplares financiados com dinheiro do contribuinte.

Mas que obras? Para começar Machado de Assis - mortal que se autoelegeu imortal ainda em vida -, seguido por uma caterva de autores da preferência de uma comissão de "notáveis, filósofos, sociólogos, escritores e educadores". Neste país incrível, onde notável virou profissão, onde qualquer diplomado em filosofia é chamado de filósofo, esta comissão determina a seu bel prazer qual é o cânon tupiniquim. A única escritora a participar desta comissão foi Lygia Fagundes Telles. Naturalmente, teve um livro seu, Ciranda de Pedra, classificado na lista dos trezentos. Do dia para a noite, sua cotação subiu nesta suspeita bolsa de valores. Segundo a revista Veja, seu passe foi comprado pela editora Rocco, para a publicação de doze livros, por 500 mil reais.

Quem, aqui no Rio Grande do Sul, ouviu falar de Eduardo Portela, ou conhece alguma obra sua? É até mesmo possível que seu nome seja conhecido por alguns gaúchos, afinal foi aquele ex-ministrinho obscuro, de obra desconhecida, que barrou este poeta maior, o gaúcho Mário Quintana, em sua candidatura à Academia de Letras. Por um livro que ninguém conhece, A Literatura e a Realidade Nacional, Portela recebeu 30 mil reais. Por esta rápida mostragem já se vê que ser imortal ainda em vida é investimento dos mais lucrativos.

Em meio a estes trezentos - ou fora deles - estão os livros obrigatórios em vestibulares. Uma indicação para vestibular em São Paulo, por exemplo, significa tiragens milionárias, a tal ponto que inclusive os principais jornais do país entraram nesta guerra, oferecendo uma vez por semana títulos a preço de picolé. O que poderia ser muito bom para a literatura. Não fossem estes títulos obras insípidas, obsoletas, obscuras e muitas vezes ininteligíveis, que jamais levam o leitor àquela função maior da literatura, a contestação da própria época. Quando um autor entra nas listas oficiais de vestibular, é porque já envelheceu.

Me atenho a um único exemplo, Clarice Lispector, cujas obras também estão sendo negociadas por uma soma que os editores preferem não divulgar. Durante meus anos de magistério, coagido pelas ementas do currículo, tentei em vão fazer com que meus alunos lessem Lispector. Era uma tentativa absurda, já que nem mesmo eu suportava lê-la. Clarice é uma imposição curricular que vem de insondáveis instâncias do poder e só serve para afastar um aluno da literatura. Em 95, falei deste impasse em uma palestra sobre Camilo José Cela, na PUC de Porto Alegre. Ao final da palestra, uma professora me procurou e confessou aliviada: "Fiquei confortada, professor. Eu também não suporto Clarice, meus alunos não suportam Clarice e somos obrigados a ler Clarice".

Os exemplos destas leituras indigestas e obrigatórias são centenas. Fico nestas, já que temos outros problemas a abordar nestes escassos vinte minutos.


OS AMIGOS DO REI


Em junho passado, um quarteto de escritores brasileiros - Rubem Fonseca, Patrícia Mello, João Gilberto Noll e Chico Buarque - desembarcaram em Londres, onde fizeram leituras públicas de suas obras e lançaram livros não só na capital britânica, como também na Escócia e no País de Gales. Em um primeiro momento, poderíamos pensar: "que maravilha, o Reino Unido se interessa por nossa literatura". Nada disso: é o Ministério da Cultura brasileiro que promove tais turismos e financia as traduções dos autores brasileiros. Vejamos estas manchetes, todas da Folha de São Paulo:

BRASILEIROS LANÇAM LIVROS NA GRÃ-BRETANHA
Autores promovem suas obras dentro de projeto patrocinado pelo Ministério da Cultura

RUBEM FONSECA LÊ CONTO EM LONDRES

Segundo Eric Nepomuceno, secretário de Intercâmbio e Projetos Especiais do Ministério da Cultura, "a essa ação do Reino Unido devem ser somadas outras, já em andamento, que compõem o programa de apoio à difusão de nossa literatura no exterior, elaborado pelo Ministério da Cultura. Este programa já tem comprometido o lançamento de pelo menos 42 títulos de literatura contemporânea até 1998 em cinco países, além do programa do escritor-residente em cinco universidades norte-americanas e mesas-redondas em vários países. Acho que é justo solicitar menção a essas iniciativas. Afinal, tudo isto está sendo pago por fundos públicos, geridos por este ministério, e creio que é nosso dever informar devidamente o uso dado a esses recursos".

Ou seja: quem paga o turismo destes escritores, todos amigos do poder, sejam vivos ou mortos, é o contribuinte. Nesta brincadeira, apenas para a tradução dos livros, foram gastos US$ 35 mil, financiados pelo Ministério da Cultura. O governo brasileiro, isto é, o contribuinte brasileiro, também contribui com parte dos custos de viagem. Ou seja, este país cheio de mendigos atirados nas ruas de suas capitais se dá ao luxo de usar dinheiro público para que alguns amigos do rei - ou, dizendo melhor, amigos de Francisco Weffort, o atual ministro da Cultura - editem suas obras na Europa. Mas será que este contribuinte foi consultado na hora de financiar edições e mordomias a estes escritores que nem conhece? A propósito, quem é Patrícia Mello? Alguém conhece quais títulos de vulto esta senhora escreveu para julgar-se capaz de representar a literatura brasileira na Europa?


A NEOCENSURA STALINISTA


Falar de sátira é falar de crítica. Antes de concluir esta comunicação, quero denunciar três casos de uma neocensura que se instalou depois de 64, tão ou mais eficaz que a antiga.

Caso 1: em 1994, em São Paulo, o poeta Bruno Tolentino criticou uma tradução de um poema de Hart Crane, feita por Augusto de Campos. Recebeu como resposta um abaixo-assinado de uma centena de escritores, poetas e estrelas do showbusiness, exigindo sua cabeça. No abaixo-assinado, em momento algum se discutia o mérito da tradução ou o mérito da crítica à tradução. Os abaixo-assinantes apenas demonstravam sua indignação ante a crítica de Tolentino ao PhDeus uspiano Augusto de Campos. Entre esta centena de neocensores estão nomes que sempre se manifestaram pela liberdade de expressão e pensamento, como João Alexandre Barbosa, Roberto Romano, Júlio Bressane, João Cabral de Melo Neto, Miriam Chnaiderman, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Lúcia Santaella, Marilena Chauí, Gal Costa. Da centena de assinantes do manifesto, talvez quatro ou cinco conheçam os poemas de Hart Crane e certamente nenhum entende pivicas de tradução. Mas todos assumiram, com unanimidade albanesa, a defesa de Augusto Campos. Entrincheirado no Olimpo uspiano, Campos está acima de qualquer crítica. E seus sequazes apedrejam quem quer que o critique.

Caso 2: em 1996, em Porto Alegre, o jornalista Juremir Machado da Silva, escritor e doutor em Sociologia pela Universidade de Paris V, fez uma ligeira crítica a seu colega de jornalismo na Zero Hora, o cronista Luiz Fernando Verissimo este outro senhor que se julga acima de qualquer crítica. Reunido com Juremir, Verissimo impôs uma condição: "ou o Juremir se retrata, ou eu saio do jornal". Pois Verissimo não aceita críticas. O Sindicato dos Jornalistas apoiou Verissimo e, pela primeira vez na história do jornalismo brasileiro, vimos um sindicato apoiando a decapitação de um colega. Verissimo, o humorista gaúcho de renome nacional, adora rir e fazer rir seus leitores. Desde que não lhe teçam a mínima crítica. Com sua atitude stalinista, teve uma vitória de Pirro: do alto de sua prepotência de ginasiano, jogou no ostracismo um jovem doutor pela Universidade de Paris V.

Caso 3: No mês passado, entre outras obras, foi apreendido na Feira do Livro do Rio Janeiro, A História Secreta do Brasil, de um imortal morto, Gustavo Barroso, membro da Academia Brasileira de Letras. Não ouvi um só chiado de nenhum imortal vivo, ou mesmo moribundo, contra este gesto hitlerista de um juiz carioca.

Concluindo: houve época em que sátira significava prisão, exílio, repúdio dos contemporâneos. Neste país tropical, abençoado por Deus, o gênero adquiriu novos significados: imortalidade avant la lettre, mordomias estatais, tiragens divinas, turismo financiado pelo erário, saque ao bolso do contribuinte e mais: censura, ostracismo e desemprego a quem ousar denunciar esta corrupção. Está inaugurada, neste Brasil, a indústria textil.

(Passo Fundo, 05.09.97)