¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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segunda-feira, setembro 03, 2007
 
MISÉRIA MENTAL DO SUPREMO TRIBUNAL



Comentei sábado passado a estranha lógica do novo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Carlos Alberto Direito. O novo ministro é católico e afirmou que a fé "nunca interferiu nos meus julgamentos. Pelo contrário, ela sempre os iluminou". Ou seja, não interfere interferindo. Direito afirma algo e na frase seguinte o nega. O que me lembra o paradoxo do gato de Schrödinger, que existe e não existe ao mesmo tempo. Do voto desde senhor, dependerão decisões vitais para o corpo jurídico da nação. Brasileiros, estamos bem arranjados.

Um outro ministro, o Eros Grau, além de autor de livros eróticos, é comunista. Sua obra erótica, pelo que sei de oitiva, gira em torno de uma "vagina flatulenta". Sua elegância pessoal, ao que tudo indica, se reflete na elegância de sua literatura. Recentemente, sem que ninguém nada lhe perguntasse, manifestou-se a favor da invasão da Faculdade de Direito da USP por alunos e apparatchiks do MST.

É um ministro barato. Antes de tomar posse no STF, Grau emitiu parecer para uma associação de professores, cobrando 35 mil reais para pronunciar-se contra a contribuição dos inativos. Uma vez ministro, votou a favor. Segundo o jornalista Jânio de Freitas, o ministro passou a receber, quando empossado, a metade de seu preço de parecerista. "Eros Grau ficou, de fato, muito mais barato", disse Freitas na ocasião.

Mas o melhor ainda está por vir. Em entrevista para a Folha de São Paulo, declarou hoje um outro ministro, Carlos Ayres Brito: "Faço meditação oriental há 13 anos e aprendi com os místicos mais acatados, como Buda, Cristo, são Francisco de Assis e, mais recentemente, Krishnamurti e Osho".

A mente do ministro está mais para salada de frutas que para um cérebro que tem, entre outras funções, a de guardar a Constituição. Para começar, o Cristo e o Francisco nada têm a ver com Buda. São como azeite e água. Cristo se dizia Deus, Francisco acredita que Cristo era Deus e o Buda é ateu. Até aí se entende. Vivemos em uma época em que as pessoas constroem deuses à la carte para consumo próprio e fazem uma fezinha em cada crença, afinal seguro morreu de velho. Até escritores de talento cultivam estes coquetéis místicos. Nikos Kazantzakis, por exemplo, cultuava três homens santos: Cristo, Buda e Lênin.

O que me choca é ver um ministro da Suprema Corte citar Osho como um de seus mestres.

Osho foi um vigarista hindu que se chamava Rajneesh Chandra Mohan Jain. Com o nome mais sujo que pau de galinheiro, passou a chamar-se Osho. Dizia-se Deus, fez fortuna enganando jovens e provocou um escândalo internacional com suas cerimônias tântricas, em verdade alegres orgias sexuais. Possuía terrenos, hotéis, uma rede de casa de massagens na Europa - isto é, prostituição - e uma frota de 91 Rolls-Royces. Acusado de perversão, realização de lavagem cerebral e sonegação de impostos, foi deportado dos Estados Unidos para a Índia, onde morreu de Aids. Os fanatizados que ainda o seguem, apesar de sua trajetória criminosa, não aceitam esta versão. Dizem que foi assassinado pela CIA.

Nos EUA, respondeu por 35 acusações e foi condenado a dez anos de prisão com sursis. Foi expulso também da Grécia, foi rechaçado da Alemanha e da Espanha, só conseguiu entrar na Irlanda porque seu piloto alegou ter um doente a bordo. Sua secretária Sheela Birustiel-Silvermann (Ma Anad Sheela) foi extraditada da Alemanha, onde estava no cárcere em Bühl, e foi condenada pelo tribunal federal de Portland (Oregon), em 86, a quatro anos e meio de prisão, por fraude e envenenamento alimentar. A investigação revelou que centenas de jovens mulheres foram constrangidas a aceitar uma operação de esterilização. Rajneesh não tem biografia, mas folha corrida.

Este é um dos mestres espirituais do insígne ministro Carlos Ayres Brito.

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