¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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domingo, setembro 16, 2007
 
NÃO VERÁS!



Desde há muito, nas capitais e grandes cidades brasileiras, a função de polícia foi delegada ao cidadão. O habitante das metrópoles que se proteja, pois a polícia nem está aí para protegê-lo. Vivemos entre grades, protegidos por seguranças nas ruas e nos prédios, por câmeras, cercas eletrificadas, algumas com arame farpado e, conforme o bolso de cada um, carros e portas blindadas. Não poucos apartamentos em São Paulo possuem bunkers internos, com provisões de água e alimentos, para o caso de o residente ser assaltado dentro de sua própria casa. Estas precauções aumentam consideravelmente o preço que se paga para morar. A polícia, que é paga com seus impostos, só surge depois de o crime ser cometido.

Há alguns anos, falei da visita que recebi de uma amiga sabra. Sabra, para quem não sabe, são os judeus que nasceram em Israel. Ao sair de casa, ela começou a fotografar freneticamente as cercas eletrificadas de minha rua. Perguntei-lhe que graça ela achava naquelas fotos. Explicou-me que estava chocada, que nunca havia visto algo assim, nem mesmo em Israel que vivia em permanente estado de guerra.

Em meio à esta ausência total de força policial, surgem cá e lá idéias de jerico. A última partiu dos restauradores dos Jardins, bairro nobre de São Paulo, onde estão os restaurantes e lojas mais caras da cidade. Os proprietários de restaurantes estranham que uma clientela endinheirada do interior freqüentem as lojas do bairro, voltem para casa com sacolas Dior e Armani, mas dêem de ombros para restaurantes. Et pour cause. Em alguns desses restaurantes, alguns gramas de trufas brancas custam 300 reais e um vinho pode custar, como é o caso do Fasano, mais de 39 mil reais. A propósito, quem gosta de freqüentar tais ambientes é o José Dirceu - aquele mesmo, o chefe da quadrilha - que ano passado foi visto pagando 16 mil reais por uma garrafa de vinho. Nada mau para quem está, supostamente, alijado do poder.

Tentando reverter a situação, alguns restaurantes do pedaço bolaram uma idéia brilhante, oferecer um tour gastronômico. Você come a entrada em um restaurante, o prato principal em um segundo e a sobremesa no terceiro. Não é preciso ser intelectualmente muito dotado para imaginar o que vai acontecer. Você encontra mesa no primeiro restaurante. Come a entrada e vai ao segundo, que está lotado. Aí você faz um trou normand - pausa que os franceses fazem entre uma refeição e outra na Normandia, para poder continuar comendo - de uma ou duas horas para comer o prato principal. E talvez mais um outro trou para a sobremesa.

Mas não é ainda aqui que reside a idéia de jerico. O melhor vem agora. Para proteger os clientes de assaltos, será oferecida segurança privada para acompanhá-los no percurso entre um restaurante e outro. Minha amiga sabra adoraria fotografar essa gente toda, acompanhada cada um com seu segurança, para poder entrar em um restaurante e comer.

Em Madri, cidade que pouco dorme à noite, há uma prática que muito me apraz. Os madrilenhos vão de bar em bar, empinando umas copitas cá e lá, entremeadas de pinchos ou tapas, que no fim é a mesma coisa. Esta via-sacra, eu a cumpri também em Lisboa. Mas é diferente. Depois das copas y pinchos - que são uma ocasião de curtir diferentes ambientes, novos rostos - procura-se um restaurante para, definitivamente, jantar. Seja como for, jamais ocorreria a um madrilenho ou lisboeta aceitar a escolta de um gorila para ir de um lugar a outro. Os restauradores dos Jardins parecem ter ouvido o galo cantar, só que não sabem onde.

Se você se surpreendeu com a idéia do vinho de 39 mil reais, deixo aqui minha sugestão. Junte essa grana e convide um parceiro ou parceira para um giro de uns trinta dias entre Paris, Amsterdã, Roma e Madri. Freqüente os melhores restaurantes destas cidades, deguste pratos soberbos, beba grandes vinhos, curta aquelas arquiteturas milenares e obras de arte que a Europa lhe oferece. E ainda vai sobrar troco. Esses restaurantes tipo Fasano ou Massimo, em São Paulo, são o que chamo de restaurantes para pessoas jurídicas. Quem vai lá, são novos ricos que nunca pagam do próprio bolso sua conta. Não por acaso são muito freqüentados por pessoas de elevada estatura moral, como Zé Dirceu, Sarney, Delfim Netto, ACM quando vivo. O consumo entra nas famigeradas verbas de representação. Quem paga é você.

Consegue algum leitor citar-me um país no mundo onde se precise de segurança privada para ir de um restaurante a outro? Muitas vezes recorri a Bilac para entender este meu país e agora vou ter de recorrer de novo:

"Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!
Criança! Não verás nenhum país como este!"