¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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domingo, setembro 16, 2007
 
PEDE-SE TESTE DE DNA DA CAPITU



Se há um autor nacional que não consigo engolir é Machado de Assis. Salvo alguns raros contos, não vejo nada demais em sua obra. Com o decorrer do tempo, descobri que alguém afirmar que não gosta de Machado, neste Brasil, é tão ou mais grave do que dizer-se ateu nos Estados Unidos ou homossexual na Arábia Saudita. Ainda há pouco, uma amiga me questionava: "Mas se Machado não é um grande escritor, que grande escritor temos no Brasil?"

Nenhum, eu diria. Um país pode existir sem que por isso tenha grandes escritores. Sempre vi o culto de Machado como uma espécie de chauvinismo. Se temos uma nação, temos de ter uma literatura nacional. Mutatis mutandis, é como se os catarinenses dissessem, como aliás dizem: se Santa Catarina existe, existe também uma literatura catarinense. Vou adiante. Em uma publicação que especificava os cursos da universidade, encontrei uma ementa insólita: História da Filosofia Catarinense. Eu nem sabia que existia uma filosofia catarinense e já tínhamos uma história da filosofia catarinense.

Independentemente da literatura de Machado, dois fatos me fazem abominá-lo. Primeiro, criou essa excrescência que se chama Academia de Letras que, salvo alguma honrosa exceção, só abriga medíocres bajuladores do poder. Segundo, é leitura obrigatória no colegial, vestibulares, universidade. No dia em que Machado não for leitura obrigatória, duvido que algum editor ouse editá-lo. A sobrevida de Machado se deve às imposições do ensino oficial.

Mas se há algo que particularmente não suporto, é essa mania dos críticos de situar como o grande drama da literatura nacional a hipótese de Capitu ter traído ou não ter traído Bentinho. Depois de Swift ter escarnecido da humanidade toda, depois de Nietzsche ter decretado a morte de deus, depois de Dostoievski ter mergulhado nos desvãos mais escuros da alma humana, surge no Rio o Machadinho propondo o drama crucial... de uma hipótetica infidelidade conjugal. Me parece muito pobre ter esta esta questiúncula como o cerne da literatura nacional.

Pelo menos um outro brasileiro pensa como eu. Leio no Estadão de sábado entrevista com Millôr Fernandes, onde o "filósofo de Ipanema" declara:

"Desde a escola, somos condicionados a acreditar que se trata de um grande escritor. Assim, todo mundo repete isso, mesmo sem ter lido uma linha. Eu nunca disse que não gostava de Machado de Assis, mas o considero um escritor de segunda - afinal, na época dele tínhamos o Proust. Machado era um burocrata. Não entendo, por exemplo, por que tanta discussão sobre a possível traição em Dom Casmurro - só faltam encomendar agora o teste de DNA da criança para tirar a dúvida. Afinal, a se julgar pelas cartas que escreveu para o Escobar, o Bentinho era uma bicha louca, que só não saiu do armário porque não era comum na época".

Já li há algum tempo estas considerações do Millôr. Quanto ao Bentinho ser homossexual, é bastante provável, pena que o Machado não levou a história adiante. Ocorre que autor algum que assuma a defesa de uma postura homossexual será leitura obrigatória no ensino oficial. Machado queria "a glória que fica, eleva, honra e consola". Não podia ferir o Zeitgeist.

Guimarães Rosa intuiu esta censura. Poderia ter escrito o grande romance homossexual brasileiro, mas recuou na última hora. Diadorim era mulher, para felicidade geral da nação. Foi mais ou menos a atitude de Mozart, ao jogar Don Giovanni nos infernos ao final de sua ópera. Não era fácil, na Viena de sua época, dar um final feliz a um libertino que passou toda sua vida correndo atrás de saias.

Mas a beleza de Don Giovanni - falo da ópera - redime Mozart. A listina de Leporello destrói qualquer moral cristã. Só na Espanha, mille e tre. Fora as outras. Jogar Don Giovanni nos infernos não convence muito, pois o que encanta o grande público é sua vida devassa.

O Machadinho, coitado, está preocupado com uma única e mísera e hipotética infidelidadezinha.