¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quinta-feira, setembro 06, 2007
 
SOB A DITADURA DO COLESTEROL



A medicina tem modismos. Entre os de minha geração, devo ser um dos raros a ainda preservar o apêndice e as amigdalas. Por uma simples razão: em minha infância, eu vivia no campo, longe de cirurgiões. Quem vivia na cidade, à menor dor de barriga era submetido a uma apendicectomia. Bastava uma inflamaçãozinha na garganta e extirpava-se as amigdalas. Esta cirurgia não deixava de ter seus atrativos para a meninada. Fazia parte da recuperação tomar sorvetes. Cirurgião é um perigo. Nas vezes em que tive contato com algum, senti que ele me olhava como um açougueiro olha um boi. Onde é que eu corto? No acém, na picanha, no lagarto?

Não tenho mais notícias que hoje submetam crianças a estas cirurgias precoces. Foi um momento da medicina, que hoje pertence ao passado. Mas outros pertencem ao presente. Uma das pragas urbanas contemporâneas é o colesterol. Verdade que só têm colesterol as pessoas que fazem exame de colesterol. De qualquer forma, em qualquer grupo de quarentões pra cima, colesterol é tema obrigatório de conversação. Há no entanto quem pense existir uma indústria do colesterol. Entre eles, o cardiologista francês Michel de Lorgeril, pesquisador no departamento de ciências da vida do Centro Nacional de Pesquisa Científica francês (CNRS) e conhecido por seus trabalhos sobre a dieta mediterrânea. Em entrevista de Sandrine Blanchar publicada no Monde, em junho passado, Lorgeril falava de seu último livro, Dites à Votre Médecin que le Cholestérol Est Innocent, Il Vous Soignera sans Médicament. Ou seja: Diga a seu médico que o colesterol é inocente, e ele o tratará sem medicamento.

- A "teoria do colesterol" em sua forma atual não passa de um castelo de cartas - diz Lorgeril. - Quando utilizamos o senso crítico e analisamos cientificamente os dados da biologia experimental, da epidemiologia e de ensaios sobre casos clínicos, tudo desmorona. O colesterol não entope as artérias; o risco de morrer de infarto não é proporcional ao nível do colesterol no sangue e fazê-lo baixar não reduz o risco de morrer de parada cardíaca. Não sou o único a dizer isso. Pesquisadores principalmente dos EUA e da Escandinávia são contrários a essa corrida louca de uma medicina preventiva focalizada numa guerra inútil contra o colesterol. Mas essa opinião é confiscada, e a indústria surfa nessa onda sem nenhuma contestação.

Anos atrás, quando fiz meus primeiros exames de colesterol, viajei para a França com recomendação expressa de meu médico: moderação nos vinhos, cuidados com os queijos e patês e principalmente com o foie gras. (Já comentei isto, mas cabe repetir). Como creio não ser boa estratégia enganar médicos, me ative à sua prescrição. Ocorre que viajei em mês de meu aniversário, e meus amigos em Paris me esperavam com muito vinho, camemberts, rocqueforts e foie gras. Sem falar em boudins e andouilletes. Eu, anacoreta malgré moi, beliscava timidamente aquele banquete todo. Me mantive estóico. Resisti bravamente às tentações da bonaxira. Ao voltar, como literatura de bordo, comprei um Nouvel Observateur. Que tinha, como chamada de capa, "Le paradoxe du Périgord".

É um paradoxo até hoje não explicado pela literatura médica. No Périgord, uma das regiões da França onde mais se bebe vinho, onde mais se consome patês e queijos, seus habitantes têm uma saúde cardiovascular invejável. Voltei a meu médico de Nouvel Obs em punho. "Conhece o paradoxo do Périgord, Dr?" Não conhecia. Alegou que não lia francês. "Tudo bem, eu traduzo". E fui traduzindo. Depoimentos médicos asseguravam não haver nada demais em meia garrafa de vinho às refeições. Ou em duas doses de uísque por dia. E recomendavam, inclusive, misturar um pouco de boudin no leite das crianças.

Segundo Lorgeril, a teoria do colesterol "beneficia todo mundo: a indústria farmacêutica e o agronegócio, os laboratórios de análises, os fabricantes de kits de medição mas também os médicos, que podem encontrar uma vantagem nessa medicina automatizada e remuneradora; e finalmente os pacientes, que são levados a acreditar que ficarão protegidos sem fazer esforços. Não somente o colesterol é um falso inimigo como é um mau prenúncio do infarto. Pode-se ter colesterol considerado alto e viver muito tempo sem infarto, e pode-se morrer jovem de infarto tendo colesterol normal. São igualmente absurdos os conceitos de bom e mau colesterol".

Para o pesquisador do CNRS, é preciso agir sobre os megafatores de risco, que são o tabaco, a falta de exercício físico e os hábitos alimentares. O repórter do Monde considera que cerca de seis milhões de franceses tomam estatinas. Qual deveria ser um bom número?

- É impossível dar uma resposta precisa - diz Lorgeril - mas creio que se deveria dividir esse número pelo menos por 20. Estamos terrivelmente desprovidos, principalmente na França, de dados epidemiológicos e clínicas independentes. Os testes recentes de estatinas são gravemente tendenciosos, e os resultados publicados são fragmentados, às vezes incoerentes, e não permitem uma análise lúcida de seus efeitos reais. As estatinas deveriam ser reservadas a casos particulares, mas não há estudos que permitam identificar os pacientes que se beneficiariam delas. Por outro lado, os objetivos não-declarados foram induzir o maior número de prescrições possível. Chegamos a um ponto de caricatura sem equivalente na história da medicina.

Longe de mim emitir opiniões definitivas em matéria de medicina. Sou leigo, paciente e cliente da área. Mas penso que estas considerações, partindo de um cardiologista pesquisador do CNRS, não podem deixar de ser levadas em consideração. Pelo jeito, assim como um dia vivemos sob a ditadura da apendicectomia e da extirpação de amigdalas, hoje estamos vivendo sob a ditadura do colesterol. Mas não era disto que pretendia falar. E sim de algo que tem me obcecado nos últimos anos. A indústria da bipolaridade.