¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quarta-feira, setembro 12, 2007
 
A VIÚVA E A VIRGEM




Em um ano qualquer do fim do século passado, já não lembro qual, a Espanha levantou-se em pé de guerra contra uma reforma ortográfica. Por razões informáticas, pretendeu-se eliminar o ñ (pronuncia-se enhe). Os processadores de texto não previam o til sobre o n e houve quem achasse mais prático eliminar de vez a letra. Quase deu guerra civil. Para começar, seria preciso mexer no próprio nome do país, España. E também no nome da língua, español. A discussão durou pouco. A proposta foi tida como fútil e abandonada. Não demorou muito, os processadores de texto conseguiram fazer o ñ.

No Brasil, passamos por problema semelhante com o trema. Os processadores de texto tinham acentos, mas faltava o trema e o til. Para serem feitos, exigiam o uso de várias teclas, o que rouba preciosos segundos em um fechamento de jornal. A Folha de São Paulo resolveu o problema com pragmatismo. O til não dava para eliminar. Já o trema, não fazia muita diferença. E durante muito tempo a Folha circulou sem o sinalzinho, sem que isso pusesse maiores problemas aos leitores. Houve até mesmo quem achasse que o jornal pretendia desconstruir o idioma. Nada disso. Era apenas uma questão de soft. Com o avanço dos processadores de texto, a Folha voltou a usar o trema. Creio que boa parte de seus leitores sequer notou isto.

Fala-se agora de um novo acordo que propõe uma reforma ortográfica, numa tentativa de unificar a grafia da língua portuguesa nos sete países em que é falada. O trema deixará de existir, a não ser em nomes próprios e seus derivados, e o alfabeto incorporará mais três letras: k, w e y. Até aí morreu o Neves. O trema não faz grande falta mesmo, tanto que mal se notou quando a Folha o suprimiu, e muito menos quando voltou a usá-lo. Quanto às novas três letras, de novas nada têm. Há muito fazem parte do idioma. Elas sempre me intrigaram ao designar tribos indígenas. Se os indígenas nunca conseguiram montar um alfabeto, por que os nomes de suas etnias têm tanto k, w e y? A resposta é simples. É que as tribos foram batizadas por antropólogos e missionários americanos.

Pelas novas regras ortográficas, os portugueses terão de grafar algumas de suas palavras como no Brasil. Acção passará a ser ação. Terão também de retirar o h inicial de outras, como herva e húmido. Os acentos diferenciais serão eliminados, como em pára, do verbo parar. Idéia vai virar ideia. Haverá também mudanças no uso do hífen.

No fundo, uma reforma tímida, que aparentemente só irá em benefício dos semi-analfabetos, que vivem às turras com hífens, acentos e tremas. Tímida, mas caríssima. Só de imaginar o quanto custará a reedição de toda a literatura circulante - livros didáticos e demais literatura - nos sete países que compõem a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (Brasil, Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe), os editores devem estar esfregando as mãos de contentes. Sem falar em quantas florestas terão de ser derrubadas para satisfazer ao fútil capricho das autoridades do idioma.

O novo acordo de novo nada tem. Em verdade, foi assinado em 1990 pela CPLP. Como seria de esperar, os prazos de implantação das novas regras nunca foram cumpridos. A CPLP determinou então em 2004 determinou que bastaria a ratificação de três membros para que o acordo entrasse em vigor. Ano passado, Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, voltaram a falar no assunto. A verdade é que não serão apenas estes países que conseguirão unificar o idioma, ainda mais quando o país onde a língua nasceu nem está se preocupando com o assunto.

Alguém ainda lembra de Nestor de Hollanda, autor de A Ignorância ao Alcance de Todos? Hollanda achava que no acento diferencial não se deve mexer. Sem ele, não há como diferenciar a viúva da virgem.

A virgem diz "ai".