¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sábado, outubro 06, 2007
 
AIATOLÁ DE ROMA CONDENA OCIDENTE



Bento rides again. Afirmou ontem, no Vaticano, que a lei de Deus é a única que pode garantir a liberdade do homem porque a história "demonstra que as maiorias podem equivocar-se". Esta besteira foi dita ante uma Comissão Teológica Internacional, que procura definir outra besteira, os princípios de uma "ética universal". Segundo Bento XVI, somente a lei natural, que seria a estabelecida por Deus, pode regular plenamente a vida humana, a família, a igualdade na ordem social e os direitos fundamentais do homem.

Qual deus, cara-pálida? Se no Ocidente há pelo menos quatro ou cinco, no Oriente há, não milhares, mas milhões deles. É de supor-se que Bento se refira ao deus católico. Àquele velho e rabugento Jeová, roubado dos judeus, que foi mesclado com o Cristo e com este ente hipótetico não muito definido que se chama Paráclito. Mescla não muito convincente, pois o velho Deus do Antigo Testamento é cruel e genocida, ordena massacres a torto e a direito, destrói tribos e altares, em oposição ao doce Jesus, que prega o amor a todas as gentes. Doce mas não muito. "Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada", disse o doce. No Apocalipse, volta com fúria, para aniquilar os que - segundo sua ótica - não são justos.

Os católicos adoram falar em lei natural. Seria a lei pré-existente a todos os códigos humanos, aquela que o deus deles teria proferido. Ora, tal lei não existe. Pelo motivo óbvio de que não existe quem a teria proclamado. A idéia de lei natural é um conceito stalinista, que pretende pairar sobre todo Direito. Desde há muito tenho dito que Paulo, o apóstolo, foi stalinista avant la lettre. Nenhum papa, até hoje, conseguiu libertar-se deste viés stalinista. É vício de quem se pretende dono da verdade.

Há quem me julgue um ateu fanático, sempre que teço críticas ao papa. Nada disso. Para começar, crentes do mundo todo, e do próprio universo católico, têm suas críticas ao papa. De minha parte, não teria crítica alguma se o Bento, ao pregar sua fé, a pregasse apenas a seu rebanho. Ocorre que seu conceito de rebanho vai muito além do rebanho católico. Age e pensa como se aquele deusinho que impera nos corredores do Vaticano fosse o deus único do universo todo. Quando afirma que a lei de seu deus é a única que pode garantir a liberdade do homem, em nada difere de um aiatolá iraniano regendo um governo teocrático. Aiatolás e mulás, em seus feudos de analfabetos, gozam de grandes poderes. O vice-deus católico vive no Ocidente. Nada pode impor a Estados. Parece não ter se dado conta disto. Afirmar que a lei de Deus é a única que pode garantir a liberdade do homem é condenar o Ocidente e suas instituições, onde impera a lei dos homens.

Ocorre que não vivemos em regimes teocráticos. Bento vive inflado de si mesmo, de seu poder virtual sobre o mundo, todos os dias confirmado por seus áulicos. Mas o mundo é muito maior que o universo misógino do Vaticano. Que ética universal? Pretenderá Bento que seja universal essa ética que aceita a escravidão e prescreve a lapidação de mulheres? Que ordenou o extermínio de nações e mandou para a fogueira quem quer que discordasse das verdades da Santa Madre?

Nenhum papa, até hoje, desautorizou a Inquisição. Enquanto não a condenar, não têm moral algum para falar de ética, muito menos de ética universal, que é coisa que não existe. Bento XVI, no fundo, é um aiatolá castrado, que vive na ilusão medieval que sua igreja ainda tem algum poder sobre o século.