¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quarta-feira, outubro 03, 2007
 
BIÓGRAFO JUSTIFICA
CRIMES DE GUEVARA




Para o biógrafo mais conceituado de Che Guevara, o jornalista Jon Lee anderson, "assassino" é uma palavra muito forte para definir o argentino - ainda que ele ostente no currículo uma lista de mortes nas frentes de batalha em Cuba, no Congo e na Bolívia. "Era um contexto de guerra", diz Lee Anderson. "Ele matou gente. Guerra se trata de matar pessoas".

Sim, em uma guerra se mata pessoas. Mas... por acaso a Argentina andou declarando guerra à Cuba? Cuba declarou guerra ao Congo? Ou à Bolívia? Ou basta um cidadão, por si só, declarar guerra a um país, para arvorar-se no direito de sair matando? Se assim for, bin Laden está coberto de razão. Declarou guerra aos Estados Unidos. Como guerra se trata de matar pessoas, matou umas três mil de um tiro só.

A definição do jornalista respondia a uma pergunta, em uma palestra em Porto Alegre, em seminário promovido pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), sobre se o homem que ajudou Fidel Castro a liderar a Revolução Cubana deveria passar para a história como herói ou assassino. Para ele, Che é um herói porque as pessoas o querem assim. "A política dele em si não importa tanto quanto a mitologia criada ao seu redor. Se as pessoas querem que ele se torne um mito, logo ele é um mito", disse Lee Anderson.

O jornalista confunde mito com herói. Mitos são narrativas que buscam explicar os principais acontecimentos da vida, aqueles fenômenos naturais que o homem primitivo não entendia, as origens do mundo e do homem por meio de deuses, semi-deuses e heróis. No fundo, uma tosca tentativa de explicar a realidade, quando o homem ainda desconhecia as leis da física ou química. O herói, personagem criado pelos antigos gregos, é o homem capaz de feitos excepcionais. Até aí morreu o Neves, afinal tanto Lênin, como Hitler, Stalin, Mao ou Pol Pot foram responsáveis por feitos excepcionais. Alguém situaria hoje estes senhores como heróis? Como psicopatas é o que não falta neste mundo, de fato ainda há quem assim os considere. Mas não serão os psicopatas, penso, que definirão o que é herói.

Hitler foi certamente o homem mais amado em toda história da humanidade. Se examinarmos a iconografia da época, a cada aparição do Führer, há multidões hipnotizadas e deslumbradas com seu encanto. Nem Cristo, o homem-Deus, conseguiu tanto. Em sua crucificação, seus seguidores todos deram no pé. Stalin também foi adorado, mas de modo distinto. Era adorado no estrangeiro, temido entre os seus. Stalin, na Rússia, liderou pelo temor. Hitler, pelo amor. Os alemães da época viram Hitler como herói. Hoje o vemos como assassino. Quem está enganado? Nós, ou os conterrâneos contemporâneos de Hitler?

Jon Lee Anderson está dizendo que herói é quem o povo quer que seja herói. É um critério. Mas arriscado. Neste país em que futebol é símbolo de civismo, os atletas que participam das copas são, ipso facto, heróis. "Nossos heróis", dizem os jornalistas esportivos, ao se referirem aos jogadores. Estes acabam acreditando nas manchetes e assumem com prazer esta condição olímpica. Numa das últimas Copas, quando a seleção voltou ao Brasil em um Boeing com toneladas de muamba, "nossos heróis" conseguiram derrubar um secretário da Receita Federal, que insistia em submetê-los à revista pela qual passa, nas alfândegas, todo cidadão brasileiro. Na ocasião, o goleiro Tafarel manifestou aos jornalistas sua indignação em relação ao insólito excesso de zelo do secretário Osires da Silva: "Mas nós somos heróis!". Tafarel acreditou no mito criado pela imprensa.

Neste mesmo Brasil, heroísmo foi virtude atribuída até mesmo a animais. Quem não lembra da Catita, a cadelinha que defendeu uma criança atacada por dois pitbulls? "Heroína!" - berraram as manchetes. O episódio foi emblemático. Catita, mãe de vários cachorrinhos, arriscava a vida em defesa de um filhote alheio. O velho mito - este sim, mito - da Madonna, desta vez em versão canina, tão utilizado pelos jornalistas para comover leitores. Mais ainda: Catita era uma cadela plebéia, vira-lata latina e nativa. Os agressores eram cães de elite, alienígenas e com sotaque anglo-saxão. A finada luta de classes ressuscitava e se manifestava mesmo entre caninos. Em falta de heróis, vai cadela mesmo.

Mito, pode ser. Daí a herói, a distância é hiante. Se a maioria tem autoridade para decidir que um assassino é herói, está na hora de destituirmos a maioria de qualquer autoridade para afirmar qualquer coisa. Considerar Che como herói significa justificar o assassinato e os massacres, aqueles mesmos massacres que nos fazem ver com asco Hitler, Mao ou Stalin. Que as Bundchens da vida portem na bunda a efígie do herói, entende-se. Não vamos conferir autoridade intelectual a quem vive de exibir a bunda.

Mais grave é ouvir um pesquisador afirmar que o conceito de herói depende do que o povo gosta.