¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sábado, outubro 20, 2007
 
Crônicas da Guerra Fria (13)



DE COMO PASSEI FOME NA ARGENTINA



Florianópolis - Uma foto vale mil palavras, não é verdade? Talvez sim, talvez não. Ousaria arriscar que uma foto pode até mesmo não valer nada. Por exemplo, aquela foto famosa dos anos 70, a de um oficial vietnamita estourando os miolos de um vietcong. "Disparei ao mesmo tempo que o militar", disse certa vez o fotógrafo. Muita tinta rolou sobre o fato, eu mesmo dediquei-lhe não poucas linhas, denunciando a barbárie da guerra. Há coisa de alguns anos, li entrevista com o autor da foto, onde este declarava ignorar o que acontecia no momento e só bem mais tarde soube que o vietcong executado havia assassinado barbaramente, minutos antes, seis ou sete pessoas. Confessava-se arrependido de ter posto a foto em circulação. Mas o trabalho da mídia já fora feito. No mundo só faltou pedir-se a canonização do terrorista justiçado.

Pois outra foto semelhante está ganhando espaço na imprensa internacional, foto feita pouco antes do sangrento massacre na praça da Paz Celestial, em Pequim. A propósito, pena que Che Guevara não esteja vivo nestes dias, bem que gostaria de vê-lo opinar sobre o fato, já que considerava o regime comunista chinês seu modelo de sociedade ideal. Sem falar no cinismo dos porta-vozes do Partido. Quando todas as estimativas da imprensa internacional eram de três mil mortos, os dirigentes chineses falaram em apenas trezentos. Diminuíram mais tarde esse número para duzentos e, outro dia, na televisão, juro que vi, uma fonte oficial afirmando que não havia morrido ninguém.

Do jeito em que vão as coisas, como observou um jornalista, vai ver que nasceram pessoas na praça Tienamen e os chineses talvez tenham sido presos por violar a lei que proíbe a todo casal mais de um filho. E por qual fator se multiplicarão estes três mil mortos? Na chamada Revolução Cultural, falou-se inicialmente em milhares de mortos. Hoje, os analistas menos pessimistas aventam a cifra de vinte milhões. Acontece que quando os cadáveres atingem a casa dos milhões, contá-los se torna inviável. Enfim, em um país de um bilhão de habitantes, não serão minorias de agitadores, ainda que sejam meros milhões, que perturbarão a paz celestial da democracia chinesa, tão ao gosto de nosso asmático guerrilheiro argentino.

Mas falava de fotos. Invadiu nestes dias a primeira página dos jornais do mundo todo a foto idiota, digo, dramática, de um solitário jovem chinês interceptando com seu corpo uma coluna de tanques. Em um ímpeto datilográfico, eu já ia escrevendo foto idiota. Acontece que as fotos não são idiotas, são apenas fotos. Idiota é a interpretação. Sem falar que a foto, antes de ser foto, era filme. As televisões do mundo todo - exceto a chinesa, é claro - mostraram o rapaz subindo à torre do tanque e dela descendo e, depois, o tanque tentando desviá-lo. Cá no Brasil, já começaram a espoucar as primeiras crônicas louvando o gesto heróico do anônimo resistente. Quanto a mim, bem que gostaria de louvar sua coragem. Mas não consigo entender heroísmo como sinônimo de estupidez.

Tudo o que o homem faz tem sentido, e isto não parece ter percebido o novo e anônimo mito da década que vem. Penso não exagerar em falar em mito, tenho certeza de que a foto e o filme se repetirão ad nauseam na imprensa futura. Tanques não foram concebidos apenas para desfiles. Assim fosse, uma escola de samba sairia bem mais barato e daria mais prazer aos olhos. Tanques só podem ser enfrentados por tanques, bazucas ou bombardeios. Coquetel Molotoff pode até ter certa eficácia, mas no fundo não passa de saudosismo de anarquista ingênuo.

Opor jovens a tanques foi o que tentaram certos senhores no Brasil, eu inclusive fui convidado a participar da loucura. Em 64, estudávamos as melhores fórmulas de como deter um tanque. Como me parecia ser gesto suicida lutar de bodoque contra mastodontes, recusei-me ao suicídio. O mesmo não aconteceu com muitos companheiros de geração. Os sobreviventes, hoje instalados em altos marajanatos da "Nova República", ostentam com orgulho em seus currículos o delírio que causou a morte e a tortura de centenas de jovens mais ingênuos e entusiastas. Quantos estudantes terão tentado imitar o "heróico" gesto do anônimo "herói" da praça da Paz Celestial? Quantos, jamais saberemos. Só sabemos que foram soterrados sob as lagartas dos tanques e tiveram seus corpos incinerados em meio ao lixo. Tienamen faz jus a seu nome. Hoje, nela impera, a paz dos cemitérios.

Mas falava de fotos. Fomos bombardeados, nas últimas semanas, por dezenas de fotos e filmes, vindos da Argentina, mostrando filas de gente com fome, supermercados saqueados e vitrines em estilhaços. Tais fotos e filmes, somadas à queda brutal do austral e a uma inflação projetada de 24 mil por cento ao ano, dão-nos a idéia de um país falido. O telespectador tupiniquim, ante tal quadro, é até capaz de sorrir com seus botões: cá no Brasil, só estão faltando leite, filé e azeite. Acontece que, entre fatos e fotos, há mais distância do que sonha nossa vã fotografia.

Entrei na Argentina no dia 14 de maio, data das eleições que levaram ao poder, sem necessidade de segundo turno, o peronista Carlos Menem. Diga-se de passagem, lá tive de enfrentar minha única restrição aos regimes democráticos: a cada cinco ou seis anos, a gente fica um dia sem beber. Estava em Bariloche e, para beber, o melhor que havia era água. Macaco velho, conhecedor dessas esporádicas falhas da democracia, no Chile eu me muniria de uma botellita de bom vinho. Às oito da noite, os peronistas com seus bumbos tomaram as ruas celebrando a vitória e pedindo a renúncia de Alfonsín. Dia seguinte, acelerava-se a queda do austral. Nos supermercados, os argentinos olhavam os novos preços com desalento.

Dia 19 de maio, guiado por um portenho apaixonado por sua cidade, percorri a noite buenairense. "Quero mostrar-te as diferentes faces da crise", disse-me. Jantamos na Costanera, onde os restaurantes se sucedem, um ao lado do outro. A fome ali era uma realidade palpável: apesar dos salões imensos com duzentas ou mais mesas, os argentinos se amontoavam em filas esperando uma mesa vaga. Giramos depois pelos cafés de Belgrano, Palermo e La Recoleta. Passava de meia-noite e Buenos Aires nada ficava a dever a Madri numa noite de verão. Publiquem os jornais as fotos que quiserem, mas ninguém me convence - como parecem pretender certos correspondentes - que a Argentina empobreceu do dia 19 do mês passado para cá.

Em Paris ou Nova York, todos os dias, milhares de pessoas entram em filas para receber comida de graça. Jamais vi fotos dessas filas, e isso que leio dois ou três jornais por dia. E mesmo que as visse, jamais me ocorreria pensar que a França ou os Estados Unidos passaram a integrar, do dia para a noite, o time do Terceiro Mundo. Da Argentina também nos chegaram fotos de saques em supermercados. Impossível negar a evidência de tais saques, se bem que me soa estranho ver pessoas famintas levando terminais de computadores para comer em casa.

Alfonsín decide então renunciar, passar o cargo a Menem antes da data prevista constitucionalmente. Não vemos mais nos jornais as filas de famintos nem as fotos de saques. De ontem para cá, a Argentina parece ter sido readmitida no clube dos países ricos. Por favor, me contem outra. Essa eu já conheço.

Pouco antes do carnaval de 87, um jornal madrilenho publicava, em duas páginas centrais, uma reportagem sobre São Paulo, "a capital da Aids". Em foto de cinco colunas, um travesti soberbo exibia seus dotes. Lida a reportagem, o eventual candidato a turista tinha a impressão de que, mal aterrissasse em Cumbica, ou trancava a respiração ou estaria irremediavelmente contaminado.

Em julho do mesmo ano, a imprensa européia exibia em primeira página, depredação de trens no Rio e saques a supermercados no Nordeste. As manchetes eram mais ou menos unânimes: CAOS NO BRASIL, ou algo do gênero, como se Central do Brasil, no Rio, ou um supermercado em Recife, resumissem o clima do país todo. Uma amiga parisiense, que há horas tento arrastar ao Brasil, já andou pela Índia e pela China, mas tem arrepios ante a idéia de visitar-nos. Não acredita que possa caminhar pelas ruas de qualquer cidade, mesmo de dia, sem ser assaltada, violada ou contaminada pela peste. Uma foto, efetivamente, vale mais do que mil palavras.

Mas que a fome é uma realidade na Argentina, isto é fato incontestável e disso sou testemunha. A fome, eu a vivi, eu a sentia corroer-me as entranhas, enquanto esperava mesa para enfrentar aqueles filés imensos, concebidos para alimentar uma família, mas servidos para um só estômago. Não só passei fome como também sede, pois sede é o que nos resta após degustar um vinho seco sabendo à terra.

Nossos vizinhos vivem, efetivamente, um momento de crise. O padrão de vida do argentino - grandes fortunas à parte - baixou. "Vocês, no Brasil, estão vivendo muito melhor" - diziam-me, invariavelmente, taxistas, garçons, livreiros. E como convencer meu interlocutor de que se um dia, nós brasileiros, atingíssemos o atual nível de "pauperismo" da Argentina, poderíamos até mesmo andar de cabeça erguida?


(Joinville, A Notícia, 25.06.89)