¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quarta-feira, outubro 24, 2007
 
Crônicas da Guerra Fria (16)


CARTA AOS CORNÚPETOS



Florianópolis - Mitsuko Nakanishi chorou de felicidade quando ouviu, na televisão, Susuke Uno renunciar a seu cargo de primeiro-ministro do Japão. Mitsuko é a gueixa que, durante quatro meses lhe prestou serviços de cama e mesa, recebendo por tais préstimos 21 mil dólares. Ou seja, US$ 5.250 por mês. Arredondando em moeda do país nosso, 20 mil cruzados novos, salarinho pra marajá algum botar defeito. Susuke caiu porque Mitsuko trouxe a público a natureza de sua relação e Mitsuko ri porque Susuke caiu. Haja ingratidão nesta terra.

Mitsuko nega qualquer sentimento de vingança pessoal, alegando que agiu em defesa da mulher japonesa, que "sempre foram espancadas pelos homens e suportaram o sofrimento em silêncio". Ilhas em muito se parecem. Pois cá nas antípodas, há mulheres apanhando por salário mínimo e sequer chiam. Não que recebam salário para apanhar. Com os trocados que recebem por faxinas e lavados, sustentam o animal inútil que as espanca. Se falam em divórcio são ameaçadas de morte e, eventualmente, mortas mesmo.

À primeira vista, o fenômeno parece ser inerente à pobreza. Acontece que não é. Tenho não poucos relatos de burguesas senhoras da Beira-Mar Norte, capazes de fazer inveja a um ficcionista, na hora de explicar um olho roxo. Com uma diferença: neste nível de renda, as tensões se resolvem com mais finesse. A nobre dama faz um giro pela Europa e volta em forma, pronta para outra. Mas falava de Mitsuko.

Confesso até hoje não ter entendido por que razões uma coletividade exige de seus líderes uma vida sexual monótona, sejam estes líderes homens ou mulheres. Se há muito sexo deixou de ser pecado, não há estadista ou candidato a estadista que resista a um bom escândalo. As gueixas são uma instituição milenar no Japão, cortesia sempre oferecida a visitantes oficiais, repouso do industrial dinâmico, mãos que relaxam o executivo tenso. E vemos um ministro cair simplesmente por fazer o que todo mundo faz. O inconsciente coletivo parece pretender punir o homem bem sucedido: já que alcançaste o poder, condenamos teu corpo à tristeza. Da mesma forma, jamais consegui entender relações baseadas na violência.

Ilhas em muito se parecem, dizia. Mentira minha, mera provocação. O problema é universal e ocorre em países que não podemos chamar de incivilizados. Na França, existe inclusive uma Association des Femmes Battues. E sócias é o que não falta. Em Paris, certa madrugada, um macho estrangulava uma mulher debaixo de minha janela. Como não teria tempo de descer antes que o animal consumasse seu gesto, tentei impedi-lo a gritos: Arretez, imbécile! Para seu pasmo: Mais c’est ma femme!!!

Como em briga de marido e mulher melhor é não se meter, perguntei à moça se ela queria auxílio. Disse que não. Fechei então a janela e voltei a dormir, não sem antes pedir que se estrangulassem em silêncio.

Ou Joinville, para não ir mais longe. Leio nos jornais que a polícia atente, em média, três casos por dia de maridos que espancam, ameaçam ou abusam sexualmente de suas companheiras. Neste ano, que ainda não dobrou a esquina, três mulheres foram assassinadas, e onze espancadas, sem falar, bem entendido, nas inúmeras outras que preferem ocultar o fato, com medo da próxima surra. E mais de quinhentos maridos foram levados para os distritos policiais. Os responsáveis pelos três crimes e demais violências passeiam livres como passarinhos.

Ou seja, o macho está falido. Violência é a reação da incompetência. Com a entrada no mercado de trabalho e a liberalização dos costumes, a mulher deu um passo à frente. O macho, encerrado em seus medos, não conseguiu acompanhá-la. E reage batendo ou matando. Dos anos 70 para cá, estamos assistindo à emersão de uma mulher nova. Em falta de tacape, os maridos reagem à bala.

Falava de Mitsuko, a adorável gueixa que comeu milho na mão e depois virou o cocho. Sinal de que o Japão se ocidentaliza, importando nossa hipocrisia. Dirigente de uma potência econômica, samurai das finanças internacionais, Uno cai por uma questiúncula de cama. Dependerão a economia das nações das tesões cotidianas de seus ministros? Se assim for, seria talvez mais prudente formar um ministério de castrati. Afastaria candidatos, é verdade. Mas daria um belo coral.

Quando tudo seria mais simples, não estivesse o Ocidente contaminado por esse doentia sentimento chamado amor. Em meus dias de universidade, minhas alunas de Letras convidavam-me, às vezes, para seus casamentos. Sempre recusei polidamente tais convites, considerando que minhas pupilas de literatura nada haviam entendido, ou de casamento teriam ainda muito a entender. Pois uma coisa exclui a outra ou nem uma nem outra foi entendida.

Se a arte é a ruptura com o instituído, só me restavam duas hipóteses. Ou elas nada queriam com Letras. Ou eu fora um fracasso como professor. Na história da literatura, vibramos com as transgressões à moralidade vigente, seja na vida dos autores como dos personagens. Pois escrever é opor-se ao que vige. Na hora do casamento, minhas diletas discípulas entregavam-se, quais vacas rumo ao matadouro, ao jugo de um troglodita. Casem, meninas, casem o mais rápido possível - era o meu conselho - para que logo se divorciem e possam mergulhar na vida ainda jovens.

Fui visto como um louco, quando apenas estava sendo lúcido. Desde há muito constatei que o macho contemporâneo é menor que o próprio pênis e foge, como o diabo da cruz, de uma mulher independente. Mas nada melhor que um dia depois do outro. Pois não passa sem que eu reencontre algumas de minhas pupilas: "Tenho boas notícias, professor. Agora, me divorciei". Meu magistério não fora vão.

Falava do amor. Esta ficção ocidental surge pela primeira vez na história nos textos de Safo, poetisa de Lesbos. Enquanto grego, a amor era alegre e não excluía nenhum sexo. Mas nenhuma mudança de idioma permanece impune. Transplantado para Roma, o Eros grego deixa contaminar-se pelo cristianismo e temos esse leito de Procusto insuportável - um homem, uma mulher - que tanto derruba ministros no Japão como mata mulheres em Joinville. Quando, na escola ou na família, uma criança lê fábulas onde uma princesa é destinada a um príncipe encantado, naquele preciso momento está sendo forjado o futuro assassino.

"Quem ama não mata" - intitulava-se uma ingênua noveleta televisiva, transmitida há alguns anos. Nelson Rodrigues devia estar se revolvendo na tumba, louco pra dar uma saidela e batucar uma crônica na redação mais próxima do cemitério. Pois só mata quem ama. Pelo menos enquanto amor for concebido com essa relação eterna, exclusiva e empobrecedora entre dois condenados.


(Joinville, A Notícia, 06.08.89. Porto Alegre, RS, 02.09.89)