¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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domingo, outubro 07, 2007
 
CRÔNICAS DA GUERRA FRIA



Estou viajando ao Sul. Sul do Brasil, bem entendido. Não que me atraiam aquelas cidades onde um dia vivi. Não por acaso, fugi delas. Nelas só me atraem os amigos que lá deixei. É uma viagem rumo a amigos, não a cidades. Vou cumprir minha peregrinação anual a Dom Pedrito. Peregrinação dolorosa. Lá está minha professora de francês no ginásio, lá estão meus amigos dos dias de adolescência, lá estão os remanescentes de meu clã lá dos campos de Ponche Verde.

Mas... mas... mas... lá não tem um bar um ou restaurante que mereça este nome. A melhor opção para um almoço decente é ir à Banda Oriental. À Rivera, no Uruguai. É espantosa a diferença cultural entre as duas cidades, que distam coisa de cem quilômetros uma da outra. Dom Pedrito é um breve contra o bem comer e bem beber. Rivera é a festa. Uruguai e Brasil. Uruguai com sua finesse. O Brasil com seu grotesco. Meu restaurante predileto, o Brasil-Uruguay, na Sarandi, é revestido de madeiras e mármores. A madeira pode até ter chegado a Dom Pedrito, mas o mármore jamais botou os pés por lá. Em Rivera, há garçons. Em Dom Pedrito, há meninos que carregam pratos. Sem falar que em Rivera posso falar mi lengua de cuna - minha língua de berço. Atravesso a rua e encontro a casa onde José Hernández criou as primeiras coplas de meu poema dileto, o Martín Fierro.

Nas próximas semanas, estarei longe de meu PC, o que não é tão grave. O pior é que estarei também longe de meus arquivos e de minha biblioteca. Assim sendo, não sei se poderei alimentar todos este blog. Para não ficar longe dos leitores, vou republicar crônicas que escrevi no final dos 80 e no início dos 90. Quando caiu o muro de Berlim, reuni todas essas crônicas em um volume, que intitulei Crônicas da Guerra Fria. Eram reflexões sobre viagens, países, cidades, ideologias, em geral centradas sobre o fracasso do comunismo.

Reuni estas crônicas com carinho. Eu era o primeiro jornalista no Brasil a saudar a queda do Muro e o desmoronamento da União Soviética. Estávamos na época pré-Internet. Tirei umas vinte cópias e enviei-as a vinte editoras. Sentia-me um pioneiro. Foram raros os jornalistas, no século passado, a condenar o comunismo. E eu era um dos raros. Via um futuro brilhante para minhas crônicas.

Santa ilusão. Como me disse um dia um amigo abominável, triste é a vida de quem está adiante de sua época. Não recebi resposta alguma das vinte editoras para as quais enviei os textos. Nem mesmo resposta de recusa. Eu ria sozinho, enquanto os editores estavam todos de luto. Suponho que o envio de meu livro deve ter soado como insulto ao pranto das viúvas. A queda do Muro, que foi vista na Europa como a segunda data mais importante do século - a primeira teria sido a Revolução de 17 - foi solenemente ignorada no Brasil. Se você perguntar hoje a universitários, sejam alunos ou professores, o que aconteceu no dia 09 de novembro de 1989, ninguém saberá responder.

Enquanto viajo, reproduzo estas crônicas. São textos que têm mais de vinte anos. A republicação será um teste para ver se ainda se mantêm em pé. Algumas já serão conhecidas de quem me lê. Não importa. Ao longo de escrever, descobri que curta é a memória das gentes. E que repetir se impõe.

À bientôt!