¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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segunda-feira, outubro 01, 2007
 
DEPUTADOS DESOCUPADOS QUEREM
REGULAMENTAR APELIDOS




A mãe de todas as besteiras é o ócio. E ócio é o que não deve faltar aos deputados de Santa Catarina, que estão discutindo na Assembléia Legislativa um projeto que visa criar mecanismos para impedir uma prática comum entre crianças: colocar apelidos nos colegas. Claro que a moda não surgiu por lá. Ao que tudo indica, é mais uma vertente do politicamente correto, mania que pretende abolir antigas palavras dos dicionários. Só que desta vez a proibição tem em princípio um alvo especial, as crianças. Para Joares Pontincelli, o autor do projeto, o caso deve ser debatido entre os profissionais da Educação por se tratar de uma questão "extremamente séria". Ele atuou no magistério por 20 anos e destaca que o uso de apelidos em crianças pode trazer graves conseqüências na vida adulta.

"O caso não recebe a atenção devida, mas a humilhação, o constrangimento pode transformar a criança em uma pessoa traumatizada, capaz de atos extremos", continua o desocupado deputado, citando tragédias como o caso de Columbine e Virginia Tech, nos EUA. "Quantos vezes assistimos meninas e meninos sendo chamados de gorduchos, magrelas ou coisas piores?"

Ora, querer atribuir a apelidos essas matanças típicas de americanos é sofismar. Quem se dispõe a pegar um fuzil e sair matando quem encontra pela frente, sairá matando de qualquer jeito, chamem-no pelo nome ou pelo apelido. O deputado esquece o outro lado da questão. Apelidos podem ser muito afetivos.

Tive vários apelidos em minha vida e vários apelidos devo ter posto em meus colegas. Apelido algum me prejudicou e nem creio que aqueles que pespeguei em alguém o tenha prejudicado. Lembro que primeiro apelido, já na infância, foi Negrinho. Ou ainda, Negrinho do Canário. Ou ainda, Guri do Canário. Canário, por sua vez, era o apelido de meu pai. Todo meu clã - e não era pouca gente - sempre me chamou de Negrinho e nunca me senti desconfortável por isso. Era apelido dos mais afetivos. Em 1977, já com quarenta anos, voltei a meus pagos para despedir-me daquelas coxilhas, sangas e canhadas de meus dias de guri. Ia para Paris, onde ficaria alguns anos, e queria mostrar à minha Baixinha a pampa onde nasci. Quando cheguei à Casa - era como chamávamos o casarão senhorial de nossos avós - no pátio estava a Corininha do Raul. Ela custou a reconhecer-me. Mais de trinta anos haviam passado. Eu saíra dali imberbe e voltara barbudo. Quando falei, reconheceu-me pela voz e pulou em meu pescoço: "Negrinho!" A palavrinha, que há décadas eu não ouvia, me calou fundo, evocava toda minha infância e desatei a chorar. Hoje, este apelido talvez não fosse recomendável. Quem sabe Afrodescendentinho?

Na escola, eu era o Porongo. Nada de pejorativo. Significava que eu tinha fama de cabeça grande, no sentido de inteligente. Depois fui chamado de Janer Lambreta. Creio que era pelo meu jeito de correr, com as pernas um tanto juntas. Em minha primeira viagem a São Paulo, ganhei outro que me acompanhou em minhas militâncias, Bagual. Eu teria uns 15 anos e viera para um congresso de Ação Católica, em Campinas. Meu sotaque sulino, minha verve ao discursar, me valeram o apelido. Nada contra. Gostei. Janer era palavra que não dizia nada. Já Bagual, estava recheada de significações, juventude, vigor, pampa, liberdade, cavalo não domado, hybris. Pegou muito bem junto às àrdegas companheiras congressistas.

Há apelidos geniais. Em Porto Alegre, conheci a Maria-deixa-que-eu-chuto. Era uma esmoleira com um defeito na perna. A cada passo que dava, parecia que ia chutar mas não chutava. Ainda em Porto Alegre, conheci também um rapaz que, em função de algum distúrbio fisiológico, tinha a cabeça eternamente torcida para a esquerda. Não houve dúvida, foi logo apelidado como Peão: caminhava pra frente e comia pros lados. Foi também lá que tive uma amiga mais conhecida como Olívia Palito. Com esse nome, nem é preciso definir a pessoa. Mesmo sem conhecê-la, quando chega num bar, já sabemos que dela se trata. Também atendia por A-que-nem-o-Pitanguy conserta, mas este apelido podia indicar muitas coisas. Mais tarde, ela mesma deu-se um apelido, Bodira. Fora a Poona, na Índia, para um ashram coordenado por Rajneesh, o vigarista hindu dos 93 Rolls-Royces, e voltara rebatizada. Após mais de década sem vê-la, encontrei-a em um boteco em Florianópolis, anos 80. Olívia! - exclamei. Ela fez que nem me ouviu. Repeti. Ela me olhou e disse: "meu nome é Bodira". Ocorre que só havia duas Olívias Palitos no mundo, ela e a do Popeye. Queria ser chamada de Bodira? Que fosse. Fi-la sentar e ela me contou suas aventuras na Índia.

Foi quando me mostrou no peito um medalhão do vigarista, que então se chamava Rajneesh. "É meu mestre", disse. Caí na gargalhada, contei-lhe das vigarices do guru. Ela se ofendeu, levantou-se e foi embora. Eu estava desrespeitando sua fé. Enfim, tudo isto para dizer como apelido pode ser uma solução. Com o nome mais sujo que pau de galinheiro, Rajneesh passou a chamar-se de Osho e continuou a enganar de novo, desta vez com o nome novinho em folha.

Outro equívoco do deputado é imaginar que dar apelidos é coisa de criança. Adultos também adoram apelidar, e quando apelidam, sai da frente. Em Florianópolis, no Departamento de Letras, havia duas professoras nada simpáticas, uma chilena e outra paulista. A chilena tinha uma corcunda bastante acentuada e logo recebeu o que lhe era devido: Côncavo Andando. Também fez jus a um outro, Camelo Melancólico. A paulista, irascível e rabugenta, tinha um olho caído em função de algum problema no nervo ótico e foi logo batizada como Ritinha Farol Baixo. Na pós-graduação, onde os alunos conheciam melhor literatura, era Polifemo.

Claro que tais apelidos decorrem de uma prévia animosidade. Mas animosidade é algo que existe, com ou sem apelidos. Que pretenderão os desocupados da Assembléia Legislativa de Santa Catarina? Proibir que se tasquem apelidos? E qual será a punição? Prisão, multa, medidas educativas? Quem sabe, ajoelhar em grão de milho? Proibir apelidos é algo tão ridículo quanto proibir palavrões. Palavrões e apelidos fazem parte da linguagem.

Há apelidos que se transformaram em nomes definitivos. Milhões de pessoas no mundo ficariam surpresas se soubessem que Stalin, Lênin ou Trotsky não são nomes, mas apelidos. Stalin chamava-se em verdade Josiph Vissarionovitch Djugatchivili. Stalin quer dizer "o de aço". Lênin era Vladimir Illitch Ulianov. E Trostky, Lev Davidóvitch Bronstein.

Edson Arantes do Nascimento teria o renome que tem se não fosse o Pelé? O apelido prejudicou-lhe alguma vez na vida? Pelé é palavra insólita, original, sonora. Impossível de ser esquecida. Ou mesmo Lula. Para os jornalistas, apelidos assim são uma benção. São curtos, não atrapalham na hora de fazer manchete. Por falar nisso, como se dirigiriam os desocupados deputados catarinenses ao dirigir-se ao presidente da República? Senhor Luís Inácio?

Ridículo! Falta do que fazer.